terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Branco - XMV

 
Caribaci
 
Colhereiros
(Platalea leucorodia)
 
Figueira da Foz
Portugal
 
(28/12/2016)

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Verde - XLIX


Disfarce



Verdura de hastes
(de couval).

Nos trevos
um amarelo acoitado
neste disfarce ferido
matinal.




A.Oliveira, Lugares de rio

Cores



Ghosts
(Albert Ayler)

(1964)

David Murray Quartet

David Murray, sax tenor
Dave Burrell, piano
Fred Hopkins, baixo
Ralph Peterson, JR, bateria


(1993)

sábado, 31 de dezembro de 2016

Branco - XMIV


EU VI AS VOZES




Eu vi as vozes claramente vistas

e quis ver mais:

é este o quase branco dos avós

e dos avós desses avós sem pais?



Não ouço o silêncio que desliza

pelo branco,

nem quero saber mais:

eu vi as vozes sem sons nem pranto.





José António Matos

Que venham as aves - poemas 2005/2015, Real Gana, i.e., Figueira da Foz, 2016


sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Vermelho - XMII


Lua-Cheia


FEBRE VERMELHA



Rosas de vinho! abri o cálice avinhado,
Para que em vosso seio o lábio meu se atole:
Beber até cair, bêbado, para o lado,
Quero beber, beber até ao último gole!


Rosas de sangue! abri o vosso peito, abri-o!
Montanhas alagai! deixai-as transbordar!
Às ondas como o Oceano, ou antes como um rio
Levando na corrente Ofélias de luar…

(…)

Amo o Vermelho. Amo-te, ó hóstia do sol-posto!
Fascina-me o escarlate, os meus tédios estanca:
E apesar disso, ó cruel histeria do Gosto,
Miss Charlotte, a flor que eu amo, é branca…

         Leça, 1886





António Nobre
Só (1892), Livraria Tavares Martins, 14ª ed., 1968



Cores


(…)

     - Que estiveste a fazer aí, Griet? – perguntou ele.
     Fiquei surpreendida com a pergunta, mas não era tão ingénua que o revelasse.
     - A cortar legumes. Para a sopa.
    Dispunha sempre os legumes em círculo, agrupados como fatias de empada. Havia cinco fatias: couve roxa, cebola, alho-porro, cenoura e nabo. Tinha-me servido da lâmina de uma faca para dar forma a cada fatia e tinha colocado um disco de cenoura no centro.
     O homem bateu com um dedo na mesa.
    - Puseste-os pela ordem em que os vais meter na sopa? – sugeriu ele, examinando o círculo.
    - Não, senhor. – Hesitei. Não lhe podia dizer porque dispusera os legumes daquela forma. Limitara-me a dispô-los como me parecia que deviam estar, mas sentia-me demasiado assustada para dizer isso a um cavalheiro.
     - Vejo que separaste os brancos – disse ele, indicando os nabos e as cebolas. – E depois o cor-de-laranja e o roxo, que não vão bem juntos. Porque foi? – Pegou numa tira de couve e num pedaço de cenoura e sacudiu-os na mão como se fossem dados.
     Olhei para a minha mãe, que fez um ligeiro aceno de cabeça.
     - As cores brigam quando estão ao lado umas das outras, senhor.


(…)



Tracy Chevalier
Rapariga com Brinco de Pérola (1999), Biblioteca Sábado, 2010.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Preto e Branco - LXVII



Norbert Miguletz (Foto)

Spazio ad Attivazione Cinetica

Marina Apollonio

OP Art - Museu Schirn - Frankfurt

(2007)



http://www.schirn.de/en/exhibitions/2007/op_art/

Amarelo - LXIV


CARTA A MANUEL


(...)

             Tentúgal toda a rir de casas brancas!
A boa aldeia! Venho cá todos os meses
E contrariado vou de todas essas vezes.
Venho ao convento visitar a linda freira,
Nunca lhe falo: talvez, hoje, a vez primeira...
Vou lá comprar um pastelinho, que eu bem sei
Que ele trará dentro um bilhete, isto sonhei:
Assim o pastelinho, ó ventura sonhada!
Tem de recheio o coração da minha Amada.
Abro o envelope ideal. Vamos a ver.. - Traz? - Não!


Regresso a Coimbra só com o meu coração.

               
       Coimbra, 1888-89-90





António Nobre
, Livraria Tavares Martins, 14ª ed., 1968

Amarelo - LXIII



Forno Solar



http://www.pensandoaocontrario.com.br/2013/07/cozinhando-com-o-sol-revolucao-dos.html

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

René Magritte



René Magritte

L'Art de la conversation

(1950)



https://www.wikiart.org/en/rene-magritte/the-art-of-conversation-1950-3

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Vermelho - XMI


ETERNO FEMININO



Faz-me lembrar
o meu romance 
do Rio Grande.

Eu era vaqueiro.
Suava cavalos,
comia bom bife.

Ela dormitava
lá no Rio Grande.

Um dia, ela disse:
Traz o meu cavalo,
vem daí comigo.

Fui.




Ruy Cinatti
Conversa de Rotina
(1973)

(Ruy Cinatti-Antologia Poética, Joaquim Manuel Magalhães, Ed. Presença, 1986)

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Azul - MLXXXIII



José Fernando Vasco

Pessoas não têm raízes

Pantónio

(2014 - Figueira da Foz)



http://pallasathena-pt.blogspot.pt/2014/11/pantonio-na-2-edicao-do-fusing-figueira.html



domingo, 11 de dezembro de 2016

Amor - LXV


(…) 
Uma biblioteca, como sabe qualquer amante de livros, é constituída também, ou talvez sobretudo, por livros que ainda não lemos: o saber que acumulam não respeita apenas ao passado – os já lidos – mas constitui antes uma ferramenta de conhecimento por revelar no futuro – à nossa espera, do dia em que tenhamos tempo, real ou imaginário, para eles. Mas porque nos custa tanto desfazermo-nos de obras, incluindo menores, que calculamos nunca vir a consultar? Independentemente da função utilitária e formativa, existe, na relação dos amantes dos livros com os livros, um vínculo amoroso que não deixa de ser obsessivo (…)




Ana Cristina Leonardo
Jornal Expresso, 2/10/2015

Cores


Os livros são um amor pesado. Arrastam-se atrás de nós como fantasmas, mesmo antes de arrastarmos fisicamente com eles, de lugar para lugar. Os livros tornam-nos conservadores: naqueles momentos em que nos apetece mudar de casa, de país, de mundo, eles perfilam-se diante dos nossos olhos, solenes, um exército de capas rijas desafiando o nosso desejo de mobilidade.
(…)
Decidimos então escolher – mas os livros ensinaram-nos também a precariedade das escolhas e das decisões. Há uma época da vida em que descobrimos que aquilo a que chamámos escolhas fundamentais resultou de um conjunto de factores e circunstâncias que, afinal, não dominámos. Fomos arrastados na enxurrada, sobrevivendo a temporais diversos – e agora, no promontório a que damos o nome de maturidade (porque ganhámos nos livros o vício de dar nome a tudo, classificar, organizar, compreender, explicar) olhamos para as escolhas que esboçámos e abandonámos, e esforçamo-nos por recomeçar o desenho da nossa vida, numa página em branco. Mas aprendemos que o branco puro não existe – nem o negro, nem o amarelo, nem o azul ou o vermelho. Nenhuma cor é afinal absoluta como nós pensávamos, nesse tempo em que chamávamos razão ao instinto, paixão ao desejo, amor ao medo, originalidade à arrogância e ousadia à provocação. Ou vice-versa – tínhamos um feixe de certezas absolutas, e uma incapacidade atávica de escutar as várias versões de uma mesma história. Talvez fosse apenas impaciência – mas nós chamavamos-lhe idealismo. Gostávamos tanto de livros que nos tornámos caçadores de palavras – e deixávamo-nos balear por elas, como se fossem canções. Agora olhamos para os livros como sinfonias, feitas de deambulações em torno de um tema recorrente, que se vai revelando em diferentes tons – à semelhança das nossas vidas. 
(…)



Inês Pedrosa

Jornal Expresso, 9/2/2008

Azul - MLXXXII



Hazul Luzah

Porto - Portugal



http://www.arquiteturaportuguesa.pt/hazul/