domingo, 14 de janeiro de 2018

Amor - LXX



Comíamos. Como uma horda de seres vivos, cobríamos gradualmente a terra. Ocupados como quem lavra a existência, e planta, e colhe, e mata, e vive, e morre, e come. Comi com a honestidade de quem não engana o que come: comi aquela comida e não o seu nome. Nunca Deus foi tão tomado pelo que Ele é. A comida dizia rude, feliz, austera: come, come e reparte. Aquilo tudo me pertencia, aquela era a mesa de meu pai. Comi sem ternura, comi sem a paixão da piedade. E sem me oferecer à esperança. Comi sem saudade nenhuma. E eu bem valia aquela comida. Porque nem sempre posso ser a guarda de meu irmão, e não posso mais ser a minha guarda, ah não me quero mais. E não quero formar a vida porque a existência já existe. Existe como um chão onde nós todos avançamos. Sem uma palavra de amor. Sem uma palavra. Mas teu prazer entende o meu. Nós somos fortes e nós comemos. Pão é amor entre estranhos.



Clarice Lispector
A Repartição dos Pães, in Contos de Clarice Lispector, Relógio d'Água Editores, Lisboa, 2006

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Branco - CIII



Caribaci

A última pedra


Figueira da Foz

(Agosto/1984)

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

domingo, 7 de janeiro de 2018

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Branco - CII







Inteirou-se da cidade
e partiu.

De novo a estrada
(e o que não viu).




A.Oliveira
Lugares de rio

Cores




Rádio Macau
Amanhã é sempre longe demais
(1987)

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Amor - LXIX


    Os amores felizes não têm história, escreveu há anos Louise Poissant [Poissant, 1988] na senda de Tolstoi. Com efeito. Depois dos obstáculos, nada mais há a contar. Sim, assumimos ao longo dos séculos que a felicidade não tem história. Tolstoi deixou-o bem claro. O amor não é feliz. Ou, pelo menos, assim temos a prová-lo uma longa tradição que o liga primeiro ao corpo, depois à alma, mas sempre à morte, essa ilha em que o humano se define e perde. E viveram felizes para sempre não tem comentário possível. Assim cai o pano.



Emília Ferreira

Aras Banhadas de Sangue Humano, in A Pulsão do Amor - Arte Partilhada Millennium bcp - Catálogo da Exposição - Espaço Chiado, Coimbra, Festival das Artes - 16/6-17/9/2011

Branco - CI


     Não só os sentimentos criam palavras, também as palavras criam sentimentos. As palavras formam uma arquitectura de ferro. São a vida e quase toda a nossa vida - a razão e a essência desta barafunda. É com palavras que construímos o mundo. É com palavras que os mortos se nos impõem. É com palavras, que são apenas sons, que tudo edificamos na vida. Mas agora que os valores mudaram, de que nos servem estas palavras? É preciso criar outras, empregar outras, obscuras, terríveis, em carne viva, que traduzam a cólera, o instinto e o espanto.



Raul Brandão
(1917)

Húmus, Quidnovi, Porto, 2008

Cores



Caribaci




Ganso-comum-ocidental
(Anser anser)

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Mulheres - XV




Anaquim
Sou imune ao teu charme
(2016)

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Branco - C


(...)


     As minhas cobaias afirmam que, à frente do quiosque dos jornais, na tabacaria, ao entrar no comboio ou na casa de banho de um restaurante, cruzam com outras pessoas a dizeram umas para as outras, em voz alta: "Vês, é mesmo o Tal". "Tens a certeza?" "Claro, é mesmo ele". E continuam a sua conversa amavelmente, enquanto o Tal sente que eles não se importam que ele os ouça, como se ele não existisse.
       Ficam confusos com o facto de um protagonista do imaginário "massmediático" entrar de repente na vida real, mas, ao mesmo tampo, perante a personagem real, comportam-se como se ela pertencesse ainda ao imaginário, como se aparecesse no écran ou numa fotografia de uma revista e eles estivessem a falar na sua ausência.

(...)

Os mass media primeiro convenceram-nos de que o imaginário era real e agora estão a querer-nos convencer de que o real é imaginário. Quanto mais realidade os ecrãs nos mostrarem, mais cinematográfico se torna o mundo de todos os dias. Até que, como queriam alguns filósofos, acabaremos por pensar que estamos sós no mundo e que todo o resto é o filme que Deus, ou um génio maligno, nos projecta à frente dos olhos.

(1989)


Umberto Eco

O Segundo Diário Mínimo, Difel, 1993

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Mulheres - XIV


Sabe quem são os seus leitores?


As mulheres adoram os meus livros. Talvez por escrever sobre relações. Alguém disse que só as mulheres lêem romances. Se pensar nos meus amigos, vejo que é verdade.

Mas é muito masculino na escrita. Como acede ao universo das mulheres?

Não concordo. Estou interessado em escrever sobre homens e mulheres. Como acedo? As mulheres têm facilidade em falar de sentimentos, descrevem como vivem, e falo muito com mulheres. As suas conversas fascinam-me.




Hanif Kureishi


Expresso - Actual, 1/12/12 (entrevista de Ana Soromenho)

domingo, 17 de dezembro de 2017

Amarelo - LXV



Perpétua-das-areias


 (Helichrysum stoechas )






http://floradaserradaarrabida.blogspot.pt/2014/01/perpetua-das-areias-helichrysum.html

Amor - LXVIII


(...)

Referiu numa entrevista que, numa sociedade obcecada pelo trabalho, o sexo é o único lugar que nos resta para o descontrolo e que a si lhe interessa o descontrolo.


É a única coisa que pode arruinar uma carreira. Veja o escândalo na América com o caso Petraeus. Podemos pôr a questão no plano do sexo, mas não está certo. Este homem quer esta mulher. Pode parecer estúpido, mas é uma coisa tremenda. Porque ele sabe que é um momento, pode perder tudo, é um grande risco. É uma história de traição e de ruína e, no entanto, ele não consegue evitar. Até onde podemos ir? Não é só sexo. É muito mais misterioso e enorme. Por isso é que estes escândalos interessam tanto às pessoas. São coisas importantes sobre a vida e os seres humanos. Todos os grandes romances são sobre isso: Madame Bovary, Anna Karenina, António e Cleópatra. Todos arriscaram a vida por causa do desejo. A única coisa interessante é o amor.



Hanif Kureishi

Expresso - Actual, 1/12/12 (entrevista de Ana Soromenho)

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Joy Division





Joy Division
Closer
(1980)
Passover