quinta-feira, 1 de março de 2018

Verde - LII




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     A mulher que eu amo escreveu-me do outro lado das árvores: "Confio. O céu está verde..."



Manuel da Silva Ramos
os três seios de Novélia (1969) - Dom Quixote, Lisboa, 2008

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Amor - LXXI





Jacques Brel

Quand on n'a que l'amour

(1956)

Verde - LI



     Novélia e eu nunca falámos. Para quê? Às cinco e um quarto da tarde em Portugal os nossos olhos encontram-se. Às vezes penso nisso. No rigor. Na matemática. Então descubro que as nossas caras são duas equações a uma incógnita com o mesmo resultado (os olhos) sempre. Mas as equações são sempre diferentes. Variam com o frio, com a humidade, com a menstruação. Novélia e eu nunca falámos. Nunca dissemos nada um ao outro. Apenas esperamos. Às vezes pergunto-me (pergunto-te): és casada? Virgem? Tens um filho loiro ou verde? Quantos homens passaram pelos teus lábios? Quantas esperanças nasceram a par dos teus seios? Quando me conheceste? Quando nos conhecemos?
       Depressa Novélia: existes ou não? Diz. Diz.




Manuel da Silva Ramos
(1969)
os três seios de Novélia, Dom Quixote, Lisboa, 2008


Carlos de Oliveira


INSTANTE




Esta coluna
de sílabas mais firmes,
esta chama
no vértice das dunas
fulgurando
apenas um momento,
este equilíbrio
tão perto da beleza,
este poema
anterior
ao vento.




Carlos de Oliveira
Sobre o Lado Esquerdo, P. Dom Quixote, Lisboa, 1968

domingo, 14 de janeiro de 2018

Amor - LXX



Comíamos. Como uma horda de seres vivos, cobríamos gradualmente a terra. Ocupados como quem lavra a existência, e planta, e colhe, e mata, e vive, e morre, e come. Comi com a honestidade de quem não engana o que come: comi aquela comida e não o seu nome. Nunca Deus foi tão tomado pelo que Ele é. A comida dizia rude, feliz, austera: come, come e reparte. Aquilo tudo me pertencia, aquela era a mesa de meu pai. Comi sem ternura, comi sem a paixão da piedade. E sem me oferecer à esperança. Comi sem saudade nenhuma. E eu bem valia aquela comida. Porque nem sempre posso ser a guarda de meu irmão, e não posso mais ser a minha guarda, ah não me quero mais. E não quero formar a vida porque a existência já existe. Existe como um chão onde nós todos avançamos. Sem uma palavra de amor. Sem uma palavra. Mas teu prazer entende o meu. Nós somos fortes e nós comemos. Pão é amor entre estranhos.



Clarice Lispector
A Repartição dos Pães, in Contos de Clarice Lispector, Relógio d'Água Editores, Lisboa, 2006

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Branco - CIII



Caribaci

A última pedra


Figueira da Foz

(Agosto/1984)

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

domingo, 7 de janeiro de 2018

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Branco - CII







Inteirou-se da cidade
e partiu.

De novo a estrada
(e o que não viu).




A.Oliveira
Lugares de rio

Cores




Rádio Macau
Amanhã é sempre longe demais
(1987)

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Amor - LXIX


    Os amores felizes não têm história, escreveu há anos Louise Poissant [Poissant, 1988] na senda de Tolstoi. Com efeito. Depois dos obstáculos, nada mais há a contar. Sim, assumimos ao longo dos séculos que a felicidade não tem história. Tolstoi deixou-o bem claro. O amor não é feliz. Ou, pelo menos, assim temos a prová-lo uma longa tradição que o liga primeiro ao corpo, depois à alma, mas sempre à morte, essa ilha em que o humano se define e perde. E viveram felizes para sempre não tem comentário possível. Assim cai o pano.



Emília Ferreira

Aras Banhadas de Sangue Humano, in A Pulsão do Amor - Arte Partilhada Millennium bcp - Catálogo da Exposição - Espaço Chiado, Coimbra, Festival das Artes - 16/6-17/9/2011

Branco - CI


     Não só os sentimentos criam palavras, também as palavras criam sentimentos. As palavras formam uma arquitectura de ferro. São a vida e quase toda a nossa vida - a razão e a essência desta barafunda. É com palavras que construímos o mundo. É com palavras que os mortos se nos impõem. É com palavras, que são apenas sons, que tudo edificamos na vida. Mas agora que os valores mudaram, de que nos servem estas palavras? É preciso criar outras, empregar outras, obscuras, terríveis, em carne viva, que traduzam a cólera, o instinto e o espanto.



Raul Brandão
(1917)

Húmus, Quidnovi, Porto, 2008

Cores



Caribaci




Ganso-comum-ocidental
(Anser anser)

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Mulheres - XV




Anaquim
Sou imune ao teu charme
(2016)

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Branco - C


(...)


     As minhas cobaias afirmam que, à frente do quiosque dos jornais, na tabacaria, ao entrar no comboio ou na casa de banho de um restaurante, cruzam com outras pessoas a dizeram umas para as outras, em voz alta: "Vês, é mesmo o Tal". "Tens a certeza?" "Claro, é mesmo ele". E continuam a sua conversa amavelmente, enquanto o Tal sente que eles não se importam que ele os ouça, como se ele não existisse.
       Ficam confusos com o facto de um protagonista do imaginário "massmediático" entrar de repente na vida real, mas, ao mesmo tampo, perante a personagem real, comportam-se como se ela pertencesse ainda ao imaginário, como se aparecesse no écran ou numa fotografia de uma revista e eles estivessem a falar na sua ausência.

(...)

Os mass media primeiro convenceram-nos de que o imaginário era real e agora estão a querer-nos convencer de que o real é imaginário. Quanto mais realidade os ecrãs nos mostrarem, mais cinematográfico se torna o mundo de todos os dias. Até que, como queriam alguns filósofos, acabaremos por pensar que estamos sós no mundo e que todo o resto é o filme que Deus, ou um génio maligno, nos projecta à frente dos olhos.

(1989)


Umberto Eco

O Segundo Diário Mínimo, Difel, 1993