(...) "O Fotografiska não é um museu vulgar", avisa a página da casa que acolhe a fotografia com vénia e veludo em Estocolmo. Não é vulgar, nem expectável. Com quem quer que se fale sobre a capital sueca, há um momento em que a conversa é tomada pelo silêncio. Logo se inspira e vem o suspiro: "Ah! O Fotografiska!" Entrar neste lugar de olhos postos no lago é um mergulho no silêncio de dezenas de imagens falantes. Param por aqui grandes nomes da película internacional e da magia sueca, como Christer Strömholm, o artista que não percebia nada de câmaras mas que desenhava com elas as sombras densas do mundo e dos homens. (Quarto apontamento: "No Inverno, Estocolmo é a preto e branco.")
DE PASSAREM AVES (II) De como e de quando as aves passaram tão leves aflando, as sombras pousando no ar que cortaram,
falei, mas não sei que melancolia sentida no dia por tarde eu lembrei na tarde que havia.
As aves passaram e delas falei. Do ar que cortaram as sombras ficaram, mas onde, não sei. Jorge de Sena (18/2/1956) Fidelidade, 1958 - Poesia II, Edições 70, Lisboa, 1988
(...) Uma das pinturas expressionistas mais icónicas é "O Grito", de Edvard Munch. O quadro foi mostrado pela primeira vez em 1903, como parte de um conjunto de seis peças, que não por acaso, se intitulava "Estudo para uma série chamada Amor". De facto, só entenderemos o grito em articulação com a necessidade de amor que nos habita até ao fim. No seu diário, Munch descreve a situação que terá desencadeado aquela imagem: "Passeava com dois amigos ao pôr do sol - o céu tornou-se de súbito vermelho-sangue - eu parei, exausto, e debrucei-me sobre a muralha - havia sangue e línguas de fogo sobre o azul escuro do fiorde e a cidade - os meus amigos continuaram o passeio, mas eu fiquei ali a tremer de ansiedade - e ouvi o grito infinito atravessar a Natureza. Pintei então este quadro. Pintei as nuvens com sangue verdadeiro. As cores gritavam. (...)
Rubber Ring (1985) (...) 10. Quem serias se não tivesse existido uma banda chamada The Smiths? Provavelmente, um gajo mais infeliz. Seguramente, um gajo diferente. "I don't forget the songs that made me cry and the songs that saved my life", adaptando a Rubber Ring. Os Smiths tocam na banda sonora da minha vida. Pedro Marques Lopes Expresso, 28/11/2015
Do alto da encosta, quando se descobre o panorama do vale, o que mais salta à vista é a chateza absoluta dessa linha de horizonte: um soco puído, um bloco aplainado onde se enterra o enclave fechado e recortado do vale, com as curtas ravinas afluentes, dispostas como as nervuras de uma folha. A ossatura rochosa aflora a cada instante ao longo das encostas em corcovas gastas, encrustadas do branco baço e amortecido do líquen que é uma das cores obcecantes da Bretanha. Uma vegetação áspera e pouco densa ocupa todos os intervalos: rastos de juncos secos, arbustos rasteiros, de um verde mais escuro, de giestas e tojos que se estendem em placas dartrosas, carvalhos raquíticos, pinhais anões que mergulham em torrentes negras para o fundo da ravina. Nos sítios onde o cume das encostas se une ao planalto, mal a ladeira diminui, matas rasteiras de castanheiros agarram-se por toda a parte, enraizados e hirsutos como os pêlos de uma nuca tosquiada; no Inverno, um emaranhado de bétulas despojadas, de ramiscos muito finos, cobre o fundo da ravina de uma penugem cor de rato, tão ténue que se confunde com a subida da bruma.
Não eram cores de tempestade aqueles azuis até começar a batida e o planeta duvidar de todas as circunstâncias. Não parecia de protesto aquele acossado azul enquanto as cordas fremiam despedaçando as vozes (e a surpresa no ar). A.Oliveira Lugares de Fogo