domingo, 16 de setembro de 2012

Branco - LXXXV

     Era uma voz alegre, cheia de vida, como quando a vida através da voz, se afirma a si própria tenazmente. A menina repetiu a frase no momento exacto em que passava por ele e fê-lo abrindo-se num largo sorriso: mas isso é a coisa mais bonita do mundo! É a coisa mais bonita do mundo. 
         O carreiro continuava a descer até à clínica situada no meio do parque. Tinham suspendido a conversa, mas ele ouvia o rechinar das rodas da cadeira no saibro do caminho. Apeteceu-lhe voltar-se mas não foi capaz. A coisa mais bonita do mundo. Tais foram as palavras de uma menina sem cabelo, arrastada numa cadeira de rodas por uma enfermeira. Ela sabia qual era a coisa mais bonita do mundo. Ele, pelo contrário, não sabia. Seria possível que com a sua idade, tendo visto tudo o que tinha visto e conhecido, ele não soubesse ainda qual era a coisa mais bonita do mundo?

Antonio Tabucchi
O Tempo Envelhece Depressa (Pic plec, plic pec)
(2009)

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