quarta-feira, 12 de abril de 2017

Cores


 
"Rio Negro



(…)



Pelo horizonte dissolvem-se planícies imensas pintadas de erva. Faltam nomes para tantos tons de uma mesma cor e Jorge inventa-os: vesbelho, letusto, zafaio, lusvigo. Depois esquece-se a que pertencem, mas não tem importância.

As sombras das nuvens correm pela erva e essa é outra cor ainda, uma cor escura a correr. Que nome tem uma cor que foge? Jorge deita-se e observa as nuvens. É um jogo antigo, pegar no branco e moldá-lo com a imaginação até que ele seja um dragão, um monstro, uma sereia. Imagem, imago, imitaginem. Quem foi o primeiro a fazer ideias com nuvens?

Um tigre passa-lhe por cima e é dourado como poucos. Leva um brilho novo e, ao desfazer-se, fica à vista uma bola amarela que não é daquele céu. Jorge fita a bola de luz até os olhos começarem a doer. É um sol de outros, pensa, uma luz que anda perdida. À memória chegam-lhe as histórias fantásticas lidas muitas vezes, mundos que acabam, viagens pelo espaço, seres longínquos capazes de destruir ou de criar. Aquele amarelo é cheio de possibilidades e não há nuvens que o possam voltar a esconder.

Nessa mesma noite, quando Jorge fecha os olhos para adormecer, a bola amarela espera-o brilhante. Foi a primeira vez que dormiu com uma luz acesa por dentro e passou a ser essa a cor da sua noite."
 
 
 
 
 

Nuno Camarneiro
NO MEU PEITO NÃO CABEM PÁSSAROS, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2011

 
 

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