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segunda-feira, 6 de julho de 2015

Espera - II


   - Venha ter comigo, Se tem o meu número de telefone, tem, com certeza, a minha morada. Não sei quem foi o inconsciente que lhos forneceu. Se por acaso não estiver em casa, encontrar-me-á ao fundo da rua, numa pizaria chamada Tintoretto. Ou ao lado, na brasserie Vivat.
     - A que horas?
   - A qualquer hora. Estou sempre num destes três lugares, são a minha maneira de manifestar-me trino e uno, só que em vez de ser ao mesmo tempo, sou mais metódico do que Deus: nunca estou em mais do que um lugar ao mesmo tempo. Não é tão prático para ter reuniões, mas permite-me estar mais concentrado. Deus dispersa-se muito.
   - A qualquer hora, portanto?
   - A qualquer hora.
   - Irei amanhã logo que acorde.
   - Faça isso. Eu estarei à sua espera. É essa a minha vocação.


Afonso Cruz
A Boneca de Kokoschka, Quetzal, 2010

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Branco - MXXXIII


Não me vou alongar por este tema, basta saber que um bom livro deve ter mais do que uma pele, deve ser um prédio de vários andares. O rés do chão não serve à literatura. Está muito bem para a construção civil, é cómodo para quem não gosta de subir escadas, útil para quem não pode subir escadas, mas para a literatura há que haver andares empilhados uns em cima dos outros. Escadas e escadarias, letras abaixo, letras acima.


Afonso Cruz
Os Livros Que Devoraram o Meu Pai - A Estranha e Mágica História de Vivaldo Bonfim, Editorial Caminho
(2010)

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Vermelho - LXIV


Afonso Cruz
Os Livros Que Devoraram o Meu Pai



http://www.leitura.gulbenkian.pt/index.php?area=rol&task=view&id=30680