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quinta-feira, 1 de março de 2018

Verde - LII




2


     A mulher que eu amo escreveu-me do outro lado das árvores: "Confio. O céu está verde..."



Manuel da Silva Ramos
os três seios de Novélia (1969) - Dom Quixote, Lisboa, 2008

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Amor - LXXI





Jacques Brel

Quand on n'a que l'amour

(1956)

domingo, 14 de janeiro de 2018

Amor - LXX



Comíamos. Como uma horda de seres vivos, cobríamos gradualmente a terra. Ocupados como quem lavra a existência, e planta, e colhe, e mata, e vive, e morre, e come. Comi com a honestidade de quem não engana o que come: comi aquela comida e não o seu nome. Nunca Deus foi tão tomado pelo que Ele é. A comida dizia rude, feliz, austera: come, come e reparte. Aquilo tudo me pertencia, aquela era a mesa de meu pai. Comi sem ternura, comi sem a paixão da piedade. E sem me oferecer à esperança. Comi sem saudade nenhuma. E eu bem valia aquela comida. Porque nem sempre posso ser a guarda de meu irmão, e não posso mais ser a minha guarda, ah não me quero mais. E não quero formar a vida porque a existência já existe. Existe como um chão onde nós todos avançamos. Sem uma palavra de amor. Sem uma palavra. Mas teu prazer entende o meu. Nós somos fortes e nós comemos. Pão é amor entre estranhos.



Clarice Lispector
A Repartição dos Pães, in Contos de Clarice Lispector, Relógio d'Água Editores, Lisboa, 2006

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Amor - LXIX


    Os amores felizes não têm história, escreveu há anos Louise Poissant [Poissant, 1988] na senda de Tolstoi. Com efeito. Depois dos obstáculos, nada mais há a contar. Sim, assumimos ao longo dos séculos que a felicidade não tem história. Tolstoi deixou-o bem claro. O amor não é feliz. Ou, pelo menos, assim temos a prová-lo uma longa tradição que o liga primeiro ao corpo, depois à alma, mas sempre à morte, essa ilha em que o humano se define e perde. E viveram felizes para sempre não tem comentário possível. Assim cai o pano.



Emília Ferreira

Aras Banhadas de Sangue Humano, in A Pulsão do Amor - Arte Partilhada Millennium bcp - Catálogo da Exposição - Espaço Chiado, Coimbra, Festival das Artes - 16/6-17/9/2011

domingo, 17 de dezembro de 2017

Amor - LXVIII


(...)

Referiu numa entrevista que, numa sociedade obcecada pelo trabalho, o sexo é o único lugar que nos resta para o descontrolo e que a si lhe interessa o descontrolo.


É a única coisa que pode arruinar uma carreira. Veja o escândalo na América com o caso Petraeus. Podemos pôr a questão no plano do sexo, mas não está certo. Este homem quer esta mulher. Pode parecer estúpido, mas é uma coisa tremenda. Porque ele sabe que é um momento, pode perder tudo, é um grande risco. É uma história de traição e de ruína e, no entanto, ele não consegue evitar. Até onde podemos ir? Não é só sexo. É muito mais misterioso e enorme. Por isso é que estes escândalos interessam tanto às pessoas. São coisas importantes sobre a vida e os seres humanos. Todos os grandes romances são sobre isso: Madame Bovary, Anna Karenina, António e Cleópatra. Todos arriscaram a vida por causa do desejo. A única coisa interessante é o amor.



Hanif Kureishi

Expresso - Actual, 1/12/12 (entrevista de Ana Soromenho)

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Amor - LXVII



2.

Eu cantarei de amor tão docemente,
Por uns termos em si tão concertados,
Que dois mil acidentes namorados
Faça sentir ao peito que não sente.
Farei que amor a todos avivente,
Pintando mil segredos delicados,
Brandas iras, suspiros magoados,
Temerosa ousadia e pena ausente.
Também, Senhora, do desprezo honesto
De vossa vista branda e rigorosa,
Contentar-me-ei dizendo a menor parte.
Porém, pera cantar de vosso gesto
A composição alta e milagrosa
Aqui falta saber, engenho e arte.


Luís de Camões
Sonetos - Edição de Lobo Soropita (1595), in Lírica, Círculo de Leitores, 1980

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Vermelho - XCII


Lua-Cheia


FEBRE VERMELHA



Rosas de vinho! abri o cálice avinhado,
Para que em vosso seio o lábio meu se atole:
Beber até cair, bêbado, para o lado,
Quero beber, beber até ao último gole!


Rosas de sangue! abri o vosso peito, abri-o!
Montanhas alagai! deixai-as transbordar!
Às ondas como o Oceano, ou antes como um rio
Levando na corrente Ofélias de luar…

(…)

Amo o Vermelho. Amo-te, ó hóstia do sol-posto!
Fascina-me o escarlate, os meus tédios estanca:
E apesar disso, ó cruel histeria do Gosto,
Miss Charlotte, a flor que eu amo, é branca…

         Leça, 1886





António Nobre
Só (1892), Livraria Tavares Martins, 14ª ed., 1968



domingo, 11 de dezembro de 2016

Amor - LXV


(…) 
Uma biblioteca, como sabe qualquer amante de livros, é constituída também, ou talvez sobretudo, por livros que ainda não lemos: o saber que acumulam não respeita apenas ao passado – os já lidos – mas constitui antes uma ferramenta de conhecimento por revelar no futuro – à nossa espera, do dia em que tenhamos tempo, real ou imaginário, para eles. Mas porque nos custa tanto desfazermo-nos de obras, incluindo menores, que calculamos nunca vir a consultar? Independentemente da função utilitária e formativa, existe, na relação dos amantes dos livros com os livros, um vínculo amoroso que não deixa de ser obsessivo (…)




Ana Cristina Leonardo
Jornal Expresso, 2/10/2015

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Amor - LXIV


AMOR: -



Quando te procurei em rotas de seda e ouro, eu não sabia que o amor é uma espera de mágoa e mel. Nem suspeitava que há nos corpos nus a enchente das marés que altera a tempestade. E desconhecia que é preciso empunhar o leme para que as águas inundem desesperadamente as margens.



Graça Pires
Caderno de Significados, Lua de Marfim, 2013

quinta-feira, 10 de março de 2016

Cores



Edvard Munch
O Grito
(1893)


http://abcplanet.com/where-is-the-scream-by-edvard-munch




(...) Uma das pinturas expressionistas mais icónicas é "O Grito", de Edvard Munch. O quadro foi mostrado pela primeira vez em 1903, como parte de um conjunto de seis peças, que não por acaso, se intitulava "Estudo para uma série chamada Amor". De facto, só entenderemos o grito em articulação com a necessidade de amor que nos habita até ao fim. No seu diário, Munch descreve a situação que terá desencadeado aquela imagem: "Passeava com dois amigos ao pôr do sol - o céu tornou-se de súbito vermelho-sangue - eu parei, exausto, e debrucei-me sobre a muralha - havia sangue e línguas de fogo sobre o azul escuro do fiorde e a cidade - os meus amigos continuaram o passeio, mas eu fiquei ali a tremer de ansiedade - e ouvi o grito infinito atravessar a Natureza. Pintei então este quadro. Pintei as nuvens com sangue verdadeiro. As cores gritavam. (...)



José Tolentino Mendonça
Expresso, 13/02/16



segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Amor - LXIII


The Smiths
Rubber Ring
(1985)


(...)
10. Quem serias se não tivesse existido uma banda chamada The Smiths?

Provavelmente, um gajo mais infeliz. Seguramente, um gajo diferente. "I don't forget the songs that made me cry and the songs that saved my life", adaptando a Rubber Ring. Os Smiths tocam na banda sonora da minha vida.



Pedro Marques Lopes
Expresso, 28/11/2015




quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Amor - LXII



Foram cardos,  foram prosas
Ricardo Camacho (M) e Miguel Esteves Cardoso (L)
(1981)


Marisa Liz e Amor-Electro
(2013)

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Amor - LXI



Cadeira Vazia
Lupicínio Rodrigues e Alcides Gonçalves
(1950)

Mariza
(2010)

domingo, 10 de janeiro de 2016

Amor - LX



E Depois do Adeus
José Calvário e José Niza
(1974)


Marisa Liz
Alfredo Costa
Sérgio Sousa
(2016)

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Amor - LIX



Marisa Liz e Amor Electro
A Máquina (Acordou)
(2011)

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Amor - LVIII

IV.


A graça feminina
Ainda mantém o mundo.
E secamente o digo, Poetas,
Se não cantais o amor.


Se não cantais em louvor

Da graça duma ternura,
Que é a vida? Ai, amor,
A vida é uma amargura.




Natal, 1956



Afonso Duarte

Lápides e outros poemas (1956-1957), Iniciativas Editoriais, 1960

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

1955


Come Rain or Come Shine
Harold Arlen-Johnny Mercer
(1946)

Billie Holiday & Her Orchestra
(1955)

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Amor - LVII


The Smiths
How soon is now?
(1984)

Amor - LVI


YES
GOING FOR THE ONE
(1977)

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Amor - LV



Brigada Victor Jara
Chamarrita (trad. Madeira)
(1984)



Chamarrita, chama, chama
Já dormi na tua cama
Já tua boca beijei
Já gozei dos teus carinhos
E outras coisas que eu cá sei


Volta minha chamarrita
A cavalo no meu peito
Não cabe um amor tão grande
Num palácio tão estreito