"Cresce atrás das coisas como incêndio de verdade". (Rilke - trad. MariaT.Furtado)
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sábado, 22 de fevereiro de 2014
Cores
ALENTEJO
Agonia
dos lentos inquietos
amarelos,
solidão do vermelho
sufocado,
por fim o negro,
fundo espesso,
como no Alentejo
o branco obstinado.
Eugénio de Andrade
Escrita da Terra
(1974)
Azul - MXXVI
SUL
Pelo azul da pedra vê-se que é verão,
à beira do tanque os aloendros devem estar
em flor,
as águas reflectem o silêncio.
Eugénio de Andrade
A Escrita da Terra
(1974)
Pelo azul da pedra vê-se que é verão,
à beira do tanque os aloendros devem estar
em flor,
as águas reflectem o silêncio.
Eugénio de Andrade
A Escrita da Terra
(1974)
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quinta-feira, 10 de maio de 2012
Preto e Branco - XXVIII
Vêm de longe, as cabras, dessa infância na Beira Baixa, e é sempre uma alegria voltar a encontrá-las. Ainda recentemente descobri uma, branca como alva de sacerdote, nos campos de Rio Tinto. De vez em quando vou vê-la, e embora não dê ainda pelo nome, chamo-lhe Maltesa, em homenagem a outra mais antiga e mais bárbara, que sustentou com as tetas macias os meus primeiros anos. Estas que vemos por aqui, nas dunas de Merzouga, em pleno Sahara, são negras. Negras e magras, as tetas pouco fartas, ou mesmo secas. Secas são também as carnes do pastor que, embora tivesse dado abrigo ao sol escaldante e às estrelas glaciais, nunca conseguiu para si o apaziguador olhar das cabras, que apascentava desde garoto. Em redor não se vê folha verde, contudo um oásis breve, um simples dedo de sombra, insinua-se no ar.
A cabra é um animal solar, e nem todas são negras, como sabeis.
Eugénio de Andrade
À Sombra da Memória, Quasi Edições, 2008
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quarta-feira, 11 de abril de 2012
Violeta - VIII
ENTRE MARÇO E ABRIL
Que cheiro doce e fresco,
por entre a chuva,
me traz o sol,
me traz o rosto,
entre março e abril,
o rosto que foi meu,
o único
que foi afago e festa e primavera?
Oh cheiro puro e só da terra!
Não das mimosas,
que já tinham florido
no meio dos pinheiros;
não dos lilases,
pois era cedo ainda
para mostrarem
o coração às rosas;
mas das tímidas, dóceis flores
de cor difícil,
entre limão e vinho,
entre marfim e mel,
abertas no canteiro junto ao tanque.
Frésias,
ó pura memória
de ter cantado –
pálidas, fragrantes,
entre chuva e sol
e chuva
– que mãos vos colhem,
agora que estão mortas
as mãos que foram minhas?
Eugénio de Andrade
coração do dia
(1958)
Ana Santander
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Violeta
sábado, 17 de março de 2012
Branco - LX
Faz uma chave, mesmo pequena,
entra na casa.
Consente na doçura, tem dó
da matéria dos sonhos e das aves.
Invoca o fogo, a claridade, a música
dos flancos.
Não digas pedra, diz janela.
Não sejas como a sombra.
Diz homem, diz criança, diz estrela.
Repete as sílabas
onde a luz é feliz e se demora.
Volta a dizer: homem, mulher, criança.
Onde a beleza é mais nova.
Eugénio de Andrade
branco no branco
(1984)
entra na casa.
Consente na doçura, tem dó
da matéria dos sonhos e das aves.
Invoca o fogo, a claridade, a música
dos flancos.
Não digas pedra, diz janela.
Não sejas como a sombra.
Diz homem, diz criança, diz estrela.
Repete as sílabas
onde a luz é feliz e se demora.
Volta a dizer: homem, mulher, criança.
Onde a beleza é mais nova.
Eugénio de Andrade
branco no branco
(1984)
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Eugénio de Andrade
LILIÁCEAS DE CORFU
Em Corfu os asfódelos devem estar
em flor, quando
o vento os inclina no deserto
dos lábios rompe a água.
Eugénio de Andrade
escrita da terra
(1974)
Em Corfu os asfódelos devem estar
em flor, quando
o vento os inclina no deserto
dos lábios rompe a água.
Eugénio de Andrade
escrita da terra
(1974)
quinta-feira, 15 de março de 2012
Arco-Íris
ALENTEJO
Agonia
dos lentos inquietos
amarelos,
solidão do vermelho
sufocado,
por fim o negro,
fundo espesso,
como no Alentejo
o branco obstinado.
Eugénio de Andrade
escrita da terra
(1974)
Agonia
dos lentos inquietos
amarelos,
solidão do vermelho
sufocado,
por fim o negro,
fundo espesso,
como no Alentejo
o branco obstinado.
Eugénio de Andrade
escrita da terra
(1974)
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segunda-feira, 9 de janeiro de 2012
Eugénio de Andrade
CONSELHO
Sê paciente; espera
que a palavra amadureça
e se desprenda como um fruto
ao passar o vento que a mereça.
Eugénio de Andrade
os amantes sem dinheiro
(1947-1949)
Sê paciente; espera
que a palavra amadureça
e se desprenda como um fruto
ao passar o vento que a mereça.
Eugénio de Andrade
os amantes sem dinheiro
(1947-1949)
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
Preto e Branco - XIV
” L’ombre est noir toujours même tombant des cignes.”
Victor Hugo
“É sempre escura a sombra, até mesmo dos cisnes.”
(Tradução de Eugénio de Andrade)
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sexta-feira, 5 de agosto de 2011
Luís Cília
Fecundou-te a vida nos pinhais.
Fecundou-te de seiva e de calor.
Alargou-te o corpo como os areais
onde o mar se espraia sem contorno e cor.
Pôs-te sonho onde havia apenas
silêncio de rosas por abrir,
e um jeito nas mãos morenas
de quem sabe que o fruto há-de surgir.
Brotou água onde tudo era secura.
Paz onde morava a solidão.
E a certeza de que a sepultura
é uma cova onde não cabe a coração.
Eugénio de Andrade
As Mãos e os Frutos
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domingo, 19 de dezembro de 2010
LISBOA
Francis Smith
Alguém diz com lentidão:
"Lisboa, sabes..."Eu sei.
É uma rapariga
descalça e leve,
um vento súbito e claro
nos cabelos,
algumas rugas finas
a espreitar-lhe os olhos,
a solidão aberta
nos lábios e nos dedos,
descendo degraus
e degraus
e degraus até ao rio.
"Lisboa, sabes..."Eu sei.
É uma rapariga
descalça e leve,
um vento súbito e claro
nos cabelos,
algumas rugas finas
a espreitar-lhe os olhos,
a solidão aberta
nos lábios e nos dedos,
descendo degraus
e degraus
e degraus até ao rio.
Eu sei. E tu sabias?
Eugénio de Andrade
Coração do Dia
1958
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
O dia limpo
O dia limpo como um adro deserto,
o relógio parado,
os degraus por onde o sol
sobe ao olhar -
falta que um pássaro cante em qualquer lado.
Eugénio de Andrade
O Peso da Sombra, 1982
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