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quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Cores


OS INQUIRIDORES




Está o mundo coberto de piolhos:
Não há palmo de terra onde não suguem,
Não há segredo de alma que não espreitem
Nem sonho que não mordam e pervertam.

Nos seus lombos peludos se divertem
Todas as cores que, neles, são ameaças:
Há-os castanhos, verdes, amarelos,
Há-os negros, vermelhos e cinzentos.

E todos se encarniçam, comem todos,
Concertados, vorazes, no seu tento
De deixar, como restos de banquete,
No deserto da terra ossos esburgados.




José Saramago
(1966)
Poemas Possíveis, Porto Ed., 2014

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Vermelho - LXXXIV



Luis Pastor e Lourdes Guerra
Aproximação
(Luis Pastor-música)
(2006)




Aproximação



Vem mansamente, aérea como asa 
Ou aroma entornado de luar, 
Na quentura vermelha duma brasa, 
Entre a cinza macia do olhar.


Vem num bailado alado e serpentino, 
Salpicado de estrelas e miragens, 
Na força preguiçosa do felino, 
No sussurro do vento nas folhagens. 

Vem, secreto bruxedo doutro mundo, 
Donde trouxeste o espelho em que me vejo, 
Mergulhemos os dois até ao fundo, 
Estilhaçado o silêncio pelo desejo



José Saramago

Poemas Possíveis, Portugália Ed., Lisboa
(1966)


sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Cores



"Há-de Haver..."
Espectáculo "A Viagem do Elefante"
Luís Pastor (música e voz)
(2014)


"Há-de haver..."

Há-de haver uma cor por descobrir,
Um juntar de palavras escondido,
Há de haver uma chave para abrir
A porta deste muro desmedido.
Há-de haver uma ilha mais ao sul,
Uma corda mais tensa e ressoante,
Outro mar que nade noutro azul,
Outra altura de voz que melhor cante.
Poesia tardia que não chegas
A dizer nem metade do que saber:
Não calas, quando podes, nem renegas
Este corpo de acaso em que não cabes.

José Saramago
Os Poemas Possíveis, Portugália Editora, 1966


sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Preto - XVII

Começo a formar a primeira tinta na paleta. Não é uma cor intermédia que eu precise de compor e harmonizar, como as vozes do Magnificat de Monteverdi que neste momento enchem o atelier. Limito-me a espremer o tubo generosamente, sem poupar. Preto. Agora para revelar, não para esconder. Trabalharei todo o dia.

José Saramago
Manual de Pintura e Caligrafia
(1977)

sábado, 19 de novembro de 2011

Amor - VII

Neste caso, eu queria exactamente um homem só, que não sabe que aquela mulher que se deita com ele é a morte. Não sabe, nem se sabe se alguma vez vez chegará a saber. E, no fim, tudo volta ao princípio. Não lhe quero chamar o eterno retorno, não é isso, é estarmos metidos num beco sem saída, não haver saída para a vida a não ser a morte. A única resposta que temos para a morte é o amor.


José Saramago (2005)
Conversas com Saramago
(José Carlos de Vasconcelos)

sábado, 27 de novembro de 2010

No fundo

"No fundo, ser poeta é ter um olhar; se esse olhar puder depois expressar-se em palavras, então o poema aí está para provar que o senhor que o escreveu é um poeta.

Mas pode acontecer que não tenha a capacidade expressiva suficiente para passar a poema o que sente e, apesar disso, ser um poeta.

(...) Creio que a poesia é o que é e, ao mesmo tempo, o seu próprio eco. E, provavelmente, o que o leitor capta é o eco".

José Saramago (entrevista a Eduardo Mazo, revista Veintitrés, 10.2.2002)