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terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Branco - CLXXIII



É meia-noite, em fundo toca Bela Lugosi’s Dead, do grupo Nouvelle Vague, e nem sequer a música me impede de pensar nessa realidade «bárbara, brutal, muda, sem significado, das coisas» de que falava Ortega. Olho pela janela e vejo a vida inerte, e parece-me que esse tipo de realidade bárbara e muda é especialmente percebida hoje por quem - como já Musil pensava - acha que no mundo não existe já a simplicidade inerente à ordem narrativa, essa ordem simples que consiste em poder dizer às vezes: «Depois de aquilo ter acontecido aconteceu isto, e depois aconteceu outra coisa, etecetera». Tranquiliza-nos a simples sequência, a ilusória sucessão de factos. No entanto, há uma grande divergência entre uma confortável narração e a realidade brutal do mundo. (...)


Enrique Vila-Matas
Chet Baker pensa na sua arte, Teodolito, 2013

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Branco - LIX

    Numas instruções de Julio Cortázar para se ter medo, dou com um parágrafo que fala de uma localidade na Escócia onde vendem livros com uma página em branco perdida algures no volume. "Se um leitor desemboca nessa página quando batem as três da tarde, morre."
      Olhei para o relógio. Eram três e dez. Há anos que não acreditava tão literalmente no que lia. Com efeito, pareceu-me que continuava vivo por puro milagre. (Na realidade, com relógio ou sem ele, é assim. Estou vivo por puro milagre.) 


Enrique Vila-Matas
Diário Volúvel
(Teorema, 2010)

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Branco - LVIII


Giorgio Morandi
Still Life
(1962)
http://www.artexpertswebsite.com/pages/artists/morandi.php



    (...) Mas, de qualquer forma, que faz esse estilizado objecto em frente da minha sedentária secretária? É um jarro azul-escuro que imita na perfeição um dos que Giorgio Morandi pintava. (...) Muitos creêm firmemente que as coisas são unicamente o que parecem ser e que não há nada por detrás delas. Muito bem. No entanto, a mim basta-me levantar o olhar para o jarro que tenho em frente para que essa crença se desmorone e as leis eternas do desenho geométrico, em contrapartida, permaneçam em pé no seu lugar físico, no seu sítio, enquanto vou lendo os sinais passionais do meu alfabeto metafísico. (...)


Enrique Vila-Matas
Diário Volúvel
(Teorema, 2010)

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Branco - XLII

    E pensar - disse para comigo - que uma das coisas que as pessoas não costumam compreender nos escritores - nos escritores sérios, pelo menos - é que não se começa por ter alguma coisa para escrever e  então escreve-se sobre isso, mas porque é o processo de escrever propriamente dito que permite ao autor descobrir o que quer dizer.

Enrique Vila-Matas
Perder Teorias
(2011)

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Branco - LXXIX

  Numas instruções de Julio Cortázar para se ter medo, dou com um parágrafo que fala de uma localidade na Escócia onde vendem livros com uma página em branco perdida algures do volume. "Se um leitor desemboca nessa página quando bate as três da tarde, morre."
     Olhei para o relógio. Eram três e dez. Há anos que não acreditava tão literalmente no que lia. Com efeito, pareceu-me que continuava vivo por puro milagre. (Na realidade, com relógio ou sem ele, é assim. Estou vivo por puro milagre.)

Enrique Vila-Matas
Diário Volúvel
(2008)

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Vida

   - Não, senhor, não sou escritor. - respondi, reagindo de imediato.
     - E os papéis escritos que vi? Os papéis sobre os quais caiu de sono.
     - Conto a mim mesmo a minha vida. É tudo.
     - E isso não é ser escritor?
     - Não quero ser escritor, mas sim escrever, que é uma coisa muito diferente. Não sei se capta a diferença subtil.
      (...)
      - Parece-me que a vida não existe em si mesma.
      - Então o que existe?
    -Quero dizer que a própria vida não existe por si mesma, pois se não a contámos, essa vida é somente algo que transcorre, nada mais. Está a seguir-me?
       - Estou.
       - Penso que para agarrar e compreender a vida há que contá-la, nem que seja apenas à almofada ou a si mesmo.

Enrique Vila-Matas
Longe de Vera Cruz, Assírio & Alvim, 1995