Levantou-se e foi ao espelho de corpo inteiro. Despiu-se e observou-se. Estava todo em bom estado de conservação. A pele não tinha rugas, não tinha gretas, não havia gordura a mais, ou pêlo a mais, ou músculo indesejável. O perfeito maxilar quadrado. A viril sobrancelha que parecia natural. A plena madura juventude.
Vestiu-se devagar. A camisa branca era uma afirmação que não estava preparado para fazer. Mas era o que tinha trazido nesta viagem e Pedro Levi resignou-se a mostrar o que não sentia. Preto e branco, sim ou sopas, desportivo. Tratar o corpo como um quadro de paisagem, era o que tinha aprendido na escola. Não somos como os outros.
Luísa Costa Gomes, Olhos Verdes (1994), Público, 2002, p38
Com três cores, azul, vermelho e amarelo, fabricas as restantes. O preto não o fabricas - é. Tal como o branco. Giánnis Ritsos, Papéis, 1974 (in: Antologia, Fora do Texto, Coimbra, 1993 - tradução de Custódio Magueijo)
This is no time for
Celebration
this is no time for Shaking Heads
This is no time for Backslapping
this is no time for Marching Bands
This
is no time for Optimism
this is no time for Endless Thought
This is no time for my country Right or Wrong
remember what that brought
There
is no time
there is no time
There is no time
there is no time
This
is no time for Congratulations
this is no time to Turn Your Back
This is no time for Circumlocution
this is no time for Learned Speech
This
is no time to Count Your Blessings
this is no time for Private Gain
This is no time to Put Up or Shut Up
it won't no time to come back this way again
There
is no time
there is no time
There is no time
there is no time
This
is no time to Swallow Anger
this is no time to Ignore Hate
This is no time to be Acting Frivolous
because the time is getting late
This
is no time for Private Vendettas
this is no time to not know who you are
Self knowledge is a dangerous thing
the freedom of who you are
This
is no time to Ignore Warnings
this is no time to Clear the Plate
Let's not be sorry after the fact
and let the past become out fate
There
is no time
there is no time
There is no time
there is no time
This
is no time to turn away and drink
or smoke some vials of crack
This is a time to gather force
and take dead aim and Attack
This
is no time for Celebration
this is no time for Saluting Flags
This is no time for Inner Searchings
the future is at head
This
is no time for Phony Rhetoric
this is no time for Political Speech
This is a time for Action
because the future's Within Reach
This
is the time
this is the time
This is the time
because there is no time
There
is no time
there is no time
There is no time
there is no time
(...) "O Fotografiska não é um museu vulgar", avisa a página da casa que acolhe a fotografia com vénia e veludo em Estocolmo. Não é vulgar, nem expectável. Com quem quer que se fale sobre a capital sueca, há um momento em que a conversa é tomada pelo silêncio. Logo se inspira e vem o suspiro: "Ah! O Fotografiska!" Entrar neste lugar de olhos postos no lago é um mergulho no silêncio de dezenas de imagens falantes. Param por aqui grandes nomes da película internacional e da magia sueca, como Christer Strömholm, o artista que não percebia nada de câmaras mas que desenhava com elas as sombras densas do mundo e dos homens. (Quarto apontamento: "No Inverno, Estocolmo é a preto e branco.")
Um poema como um gole d'água bebido no escuro. Como um pobre animal palpitando ferido. Como pequenina moeda de prata perdida para sempre na floresta nocturna. Um poema sem outra angústia que a sua misteriosa condição de poema. Triste. Solitário. Único. Ferido de mortal beleza.
(...) É nessa forja, onde a forma surge a partir do traço da mão, que a sua obra poética e pictórica se situa. Uma e outra parecem nunca abandonar o momento inicial da criação em que o branco e o negro se constituem mutuamente. Ao inscrever-se gestual e gestalticamente na superfície do papel, a mão interroga o enigma da escrita. Da escrita que, escrevendo-se, me escreve. A inteligência autocaligráfica da mão dá-nos testemunho da transição entre legível e ilegível, entre visível e invisível. Vemos a palavra tomar forma. Ouvimo-la. Vemo-nos a ler. “O que é a escrita?”, “O que é a palavra?”, “O que é a leitura?”, perguntam as inscrições iterativamente. A mão sabe sempre mais do que eu. E no excesso significante e silencioso do traço, emerge também o sujeito escondido na escrita. Escondido na pura potencialidade do traço como desejo de ser e de inventar ser.
Ana. Nome. No corpo de papel. Ana. Vir a ser Ana. Ser Ana. Ter sido Ana. Ser Ana depois de ser Ana. Ser Ana depois de ter sido Ana. Ana depois de Ana. Voltar a ser Ana. Ana outra vez. Ana ser. Ana só. Ser Ana. Ser só Ana. Ser Ana Ana. Querer ser Ana. Ana serena. Ana só Ana. Querer ter sido Ana. Não chegar a ser Ana. Não ser Ana. Ser quase Ana. Quase segura. Quase descalça. Ser sombra de Ana. Reflexo de Ana. Anagrama de Ana. Eco de Ana. Ser o ser Anagramático de Ana. Ser Ana na gramática de Ana. Na tisana de Ana. Na fonte de Ana. Ana fonte. Ana grama. Ana pó. Ana.
"Todas as palavras/ quando escritas/ são palavras de papel" (Ana Hatherly,Pavão Negro, 2003)
Ela ia sempre acompanhá-lo à despedida até ao primeiro degrau da escada do patamar. Enquanto esperava que lhe trouxessem o cavalo, ela ficava ali. Já se tinham despedido, não diziam mais nada um ao outro; o ar livre rodeava-a, levantando-lhe e misturando-lhe os cabelinhos soltos na nuca, ou sacudindo-lhe sobre a anca as fitas do avental que se enroscavam como bandeirolas. Uma vez, na altura do degelo, a casca das árvores ressumava sobre o pátio, a neve nos telhados das dependências derretia-se. Ela estava no patamar; foi buscar a sombrinha, abriu-a. A sombrinha, de seda cor de ardósia, deixava passar o sol que lhe iluminava com reflexos móveis a pele branca do rosto.
Ela sorria debaixo do abrigo ao calor morno; e ouviam-se as gotas de água, uma a uma, cair sobre o chamalote retesado.
Gustave Flaubert
Madame Bovary, Civilização Editora, 2012 (trad.: Daniel Augusto Gonçalves)
A riqueza combinada dos 1% mais ricos da população mundial vai superar a dos restantes 99% já em 2016, caso se mantenha a tendência atual de aumento da desigualdade a nível global, alerta um estudo da Oxfam, uma organização internacional antipobreza.(...)
A parcela da riqueza mundial detida pelos 1% mais abastados subiu de 44% para 48% entre em 2009 e 2014. O que significa que os membros deste clube exclusivo tinham, em média, 2,7 milhões de dólares (2,33 milhões de euros) cada um. (...)
(...) Mas o velho gosta de conviver com o novo: a invenção da fotografia não matou a pintura (nem a gravura), as imagens em movimento do cinema não apagaram as imagens fixas da fotografia, nem a cor desbotou o preto e branco. No processo tradicional da gelatina e prata, o que a química (luz) faz é roubar um eletrão ao ião cloreto (ou brometo) para o oferecer ao ião prata, que passa a prata metálica (preta, quando finamente dividida). O digital continua a funcionar com eletrões, e, onde há eletrões, há química.
O rinoceronte-negro-ocidental foi considerado oficialmente extinto pela International Union for the Conservation of Nature (IUCN). A espécie foi vista pela última vez em 2006 nos Camarões, pelo que os peritos a consideraram oficialmente extinta. (...) Tal como esta subespécie de rinoceronte que desapareceu para sempre, também o rinoceronte-branco-do-norte está à beira da extinção – apenas existem seis exemplares em todo o mundo e todos em cativeiro -, tal como o rinoceronte-de-Java. A indicação provém da revisão da lista de espécies ameaçadas da IUCN. O rinoceronte-branco-do-sul, tal como o parente do norte, esteve quase à beira da extinção no início do século XIX, mas graças a medidas de conservação o animal conseguiu sobreviver. Actualmente, existem cerca de 20.000 rinocerontes-brancos-do-sul em liberdade.