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sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Branco - XCVIII



Penso que devíamos ler apenas os livros que nos mordem e nos picam. (...) um livro tem de ser o machado para o mar gelado que se encontra dentro de nós. É o que eu penso.

Franz Kafka

Os Contos - 2º vol., Assírio & Alvim, 2012

domingo, 11 de dezembro de 2016

Amor - LXV


(…) 
Uma biblioteca, como sabe qualquer amante de livros, é constituída também, ou talvez sobretudo, por livros que ainda não lemos: o saber que acumulam não respeita apenas ao passado – os já lidos – mas constitui antes uma ferramenta de conhecimento por revelar no futuro – à nossa espera, do dia em que tenhamos tempo, real ou imaginário, para eles. Mas porque nos custa tanto desfazermo-nos de obras, incluindo menores, que calculamos nunca vir a consultar? Independentemente da função utilitária e formativa, existe, na relação dos amantes dos livros com os livros, um vínculo amoroso que não deixa de ser obsessivo (…)




Ana Cristina Leonardo
Jornal Expresso, 2/10/2015

Cores


Os livros são um amor pesado. Arrastam-se atrás de nós como fantasmas, mesmo antes de arrastarmos fisicamente com eles, de lugar para lugar. Os livros tornam-nos conservadores: naqueles momentos em que nos apetece mudar de casa, de país, de mundo, eles perfilam-se diante dos nossos olhos, solenes, um exército de capas rijas desafiando o nosso desejo de mobilidade.
(…)
Decidimos então escolher – mas os livros ensinaram-nos também a precariedade das escolhas e das decisões. Há uma época da vida em que descobrimos que aquilo a que chamámos escolhas fundamentais resultou de um conjunto de factores e circunstâncias que, afinal, não dominámos. Fomos arrastados na enxurrada, sobrevivendo a temporais diversos – e agora, no promontório a que damos o nome de maturidade (porque ganhámos nos livros o vício de dar nome a tudo, classificar, organizar, compreender, explicar) olhamos para as escolhas que esboçámos e abandonámos, e esforçamo-nos por recomeçar o desenho da nossa vida, numa página em branco. Mas aprendemos que o branco puro não existe – nem o negro, nem o amarelo, nem o azul ou o vermelho. Nenhuma cor é afinal absoluta como nós pensávamos, nesse tempo em que chamávamos razão ao instinto, paixão ao desejo, amor ao medo, originalidade à arrogância e ousadia à provocação. Ou vice-versa – tínhamos um feixe de certezas absolutas, e uma incapacidade atávica de escutar as várias versões de uma mesma história. Talvez fosse apenas impaciência – mas nós chamavamos-lhe idealismo. Gostávamos tanto de livros que nos tornámos caçadores de palavras – e deixávamo-nos balear por elas, como se fossem canções. Agora olhamos para os livros como sinfonias, feitas de deambulações em torno de um tema recorrente, que se vai revelando em diferentes tons – à semelhança das nossas vidas. 
(…)



Inês Pedrosa

Jornal Expresso, 9/2/2008

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Branco - MXXXIII


Não me vou alongar por este tema, basta saber que um bom livro deve ter mais do que uma pele, deve ser um prédio de vários andares. O rés do chão não serve à literatura. Está muito bem para a construção civil, é cómodo para quem não gosta de subir escadas, útil para quem não pode subir escadas, mas para a literatura há que haver andares empilhados uns em cima dos outros. Escadas e escadarias, letras abaixo, letras acima.


Afonso Cruz
Os Livros Que Devoraram o Meu Pai - A Estranha e Mágica História de Vivaldo Bonfim, Editorial Caminho
(2010)

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Vermelho - LXIV


Afonso Cruz
Os Livros Que Devoraram o Meu Pai



http://www.leitura.gulbenkian.pt/index.php?area=rol&task=view&id=30680

domingo, 16 de junho de 2013

Francisco de Quevedo

Gustoso el autor con la soledad y sus estudios


Retirado en la paz de estos desiertos,
con pocos, pero doctos libros juntos,
vivo en conversación con los difuntos
y escucho con mis ojos a los muertos.

Si no siempre entendidos, siempre abiertos,
o enmiendan, o fecundan mis asuntos;
y en músicos callados contrapuntos
al sueño de la vida hablan despiertos.

Las grandes almas que la muerte ausenta,
de injurias de los años, vengadora,
libra, ¡oh gran don Iosej! docta la emprenta.

                               En fuga irrevocable huye la hora;
                            pero aquella el mejor cálculo cuenta
                         que en la lección y estudios nos mejora.




                                            Francisco de Quevedo
                                                                     (1580-1645)


segunda-feira, 29 de outubro de 2012

sábado, 27 de outubro de 2012

domingo, 26 de agosto de 2012

Azul - LXVI

   para encontrar o azul
               eu uso pássaros


Machado de Assis

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Branco - LXXVI



Acordo, de manhãzinha, e é ainda cedo, demasiado cedo para gestos
 bruscos, urgentes, como levantar, tomar duche, comer o pão, beber o café. Nesses momentos, em que já não é o sono que se prolonga mas o prazer quase animal de poder ali estar, recordo as páginas lidas horas antes, noite dentro, e a certeza de que o livro continua à minha espera enche-me duma alegria a que não sei dar nome, porque vem da infância mas não é exactamente infantil, porque é uma alegria feita de emoções, de medos, de surpresas, de encantamento, de incredulidade, de todas as coisas que fazem com que um texto me dê prazer, isto é: me comova ou me magoe.

Ou então, acordo e penso que o livro acabou ontem, tendo eu prolongado as horas de leitura nocturna para o poder terminar, como se não soubesse já que os livros amados devem ler-se muito devagarinho, adiando o inadiável fim, distendendo o prazer de cada página, cada frase, cada palavra. Sei, no entanto, que a esse livro se seguirá imediatamente outro, um que me espera na pilha que fui fazendo, ao sabor de coisas tão diferentes como uma crítica lida, a paixão por aquele escritor, a vontade de descobrir um que ainda não conheço ou tão-só o desejo súbito, numa livraria, de levar para casa um livro novo.

Ou ainda, acordo e penso que me apetece comprar um livro, dois, três, muitos, e que esse é um dia bom, porque é então que o desejo se torna realidade, e que passearei pelos corredores das livrarias, abrindo uns, folheando outros, sabendo que, muitas vezes, não sou eu quem escolhe o livro mas sim o livro que me escolhe a mim.


Maria Manuel Viana

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

domingo, 11 de dezembro de 2011

domingo, 27 de novembro de 2011

Livros - I

A sociedade fica estranha quando nos aproximamos dos sessenta anos: falo de livros que os outros não leram, e os outros falam de livros que não me interessa ler. Mas há situações de excepção: hoje entrei num alfarrabista - e não direi  em que cidade, pois as lojas de livros usados são pátrias especiais e necessárias - sem outra intenção que não fosse olhar e reconhecer capas antigas. Numa cesta de livros "leve três e pague dois" encontrei Cavalaria Vermelha, de Isaac Babel. Quando pagava, a empregada, uma rapariga ao redor dos vinte anos, quis saber se era um bom livro. Creio que em menos de uma hora lhe contei a história da revolução bolchevique, a saga da cavalaria vermelha, e o triste e, aliás, lógico fim de um escritor que se antecipou aos acontecimentos, exercendo o mais genuíno direita da literatura: contar a História, não como foi, mas como devia ter sido.

Luis Sepúlveda
histórias daqui e dali (2010)

domingo, 20 de março de 2011

David Mourão-Ferreira

Livre, livro:
diante desta semelhança
logo em pequeno desconfiou
que não seria por acaso.

David Mourão-Ferreira
Jogo de Espelhos - Auto-Retrato