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terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Branco - CI


     Não só os sentimentos criam palavras, também as palavras criam sentimentos. As palavras formam uma arquitectura de ferro. São a vida e quase toda a nossa vida - a razão e a essência desta barafunda. É com palavras que construímos o mundo. É com palavras que os mortos se nos impõem. É com palavras, que são apenas sons, que tudo edificamos na vida. Mas agora que os valores mudaram, de que nos servem estas palavras? É preciso criar outras, empregar outras, obscuras, terríveis, em carne viva, que traduzam a cólera, o instinto e o espanto.



Raul Brandão
(1917)

Húmus, Quidnovi, Porto, 2008

sábado, 9 de dezembro de 2017

Cores


     O que me resta, portanto, para existir, é a pintura. Se deixasse de pintar seria o desespero total. As cores, as cores e nada mais, são a única linguagem que consigo falar, as cores dizem-me ainda alguma coisa. São vivas, ao passo que as palavras perderam para mim sentido, valor, toda e qualquer expressão. As cores, para mim, são ainda deste mundo; cantam, são deste mundo e parece-me que me põem em comunicação com o Outro Mundo. Nelas encontro o que a palavra perdeu. Elas são a palavra: é o desenho, também, mas é sobretudo a cor que é palavra, linguagem, comunicação, vida, tudo quanto pode pôr-me em comunicação com o resto, com o universo. É o que me prende a Ele, o que faz com que eu viva. Mas tenho ainda outro receio, receio que as vozes das cores se esgotem, se extingam. Medo de me repetir, portanto, medo de que elas não retornem depois de terem chocado com a parede fria da não expressão: porque a repetição é mortal, cliché mortal, não invenção, ou seja, não vida, esgotamento.
      É esse receio, segundo F., que explica os meus desarranjos intestinais, a minha tristeza, o meu abatimento, a depressão. E isso pode impedir-me de pintar: tenho receio de nunca mais poder pintar. Sim, é este receio que pode vir a enterrar-me ainda vivo, por tão pouco tempo ainda vivo. A cor, ó vida minha, cores, palavras minhas derradeiras, cores, personagens deste mundo, cores minhas testemunhas, meus universos, cores, existências, cores vivas, acompanhai-me, ajudai-me, vivei para que eu exista, cores, vós figuras vivas, sinais da vida, enfeites.


Eugène Ionesco
a Busca Intermitente, Difel, Lisboa, 1990

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Branco - MLXX


POÉTICA



                     1

Que é a Poesia?
                          uma ilha
                          cercada
              de palavras
                          por todos
                          os lados.


                      2

Que é o Poeta?
                         um homem
que trabalha o poema
com o suor do seu rosto.
                         Um homem
                   que tem fome
         como qualquer outro
                         homem.





Cassiano Ricardo
(1964)
Antologia da Poesia Brasileira, José Valle de Figueiredo, Ed. Verbo, s/d.


sábado, 3 de maio de 2014

Ruy Cinatti


A TERCEIRA VOZ


Com palavras incautas celebrei
o perfil da Terra. Eram incautas.
Não do meu domínio
visual. Incautas e 
recuadas
como nas almas 
o diálogo. Assim toquei
o gume da catana,
a casca de árvore, a luz
da tarde, a
face...



Ruy Cinatti
56 Poemas, Relógio D'Água
(1981)

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Branco - LXXII

Os primeiros americanos associavam a sua altivez a uma singular humildade. A arrogância espiritual era coisa estranha à sua natureza e à sua instrução. Eles nunca pretenderam que o poder da palavra articulada fosse uma prova de superioridade em relação à criação muda; pelo contrário, esse poder constitui para eles uma dádiva perigosa. Eles crêem profundamente no silêncio - que é sinal de um perfeito equilíbrio. O silêncio é a balança e o aprumo absolutos de corpo, mente e espírito.


Ohiyesa
A Fala do Índio, Auto-Retrato da Vida dos Povos Nativos da América do Norte, Fenda, 2000.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Vermelho - XXVII

Refiro-me antes a uma palavra que esclarece. Penso que em certos momentos da Literatura, houve escritores que disseram a palavra útil. Não estou a pensar na palavra transcendente que toque o inefável. Mas qualquer escritor gostaria de encontrar uma vez a palavra-chama que fizesse a ligação entre o céu e a terra.

Lídia Jorge
JL, 16/10/2002

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Rui Manuel Amaral

Jogo


Didius Kysarcius nunca tinha jogado na vida.
Aos sessenta e tal anos, descobriu o prazer dos jogos verbais. As coisas começam muitas vezes assim. Tornou-se um jogador compulsivo. Em pouco tempo, esbanjou todos os seus recursos em apostas infelizes. Perdeu tudo. Morreu abraçado a um advérbio de modo. O último que lhe restava.

Rui Manuel Amaral
Caravana (2008)

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Branco - XXX

ATROA


Já só paira
a sombra
(espelho encostado).


Na floresta
dos ocasos
só o monstro das bolachas
troa.


António O.
Matizes

terça-feira, 12 de abril de 2011

Tristeza

O pior é ouvir os que são réus a falarem como juízes. Ouvir dizer o horror com alegria sádica ("È preciso acabar com o Estado providência"). Ouvir dizer a esperança com tristeza masoquista ("É preciso mudar de vida"). Ouvir dizer a palavra "mercados" como se a rezassem. Os que se ajoelhavam perante os ameaçados donos do hoje erguem-se agora para os insultar - e ajoelham-se já em frente dos anunciados donos do amanhã que lhes canta aos ouvidos. São sempre os mesmos a fazer o mesmo para obter o mesmo.

José Manuel dos Santos
Expresso, 11/12/2010

domingo, 10 de abril de 2011

Tempo - I

Que terrível tempo este, a que somos obrigados a chamar nosso! Sobre este tempo e os seus males, sobre estes dias e os seus medos, as vozes erguem-se para proclamar o óbvio e baixam-se para proclamar o absurdo. As palavras levantam-se para afirmar o injusto  e caem para gaguejar o inútil. Lemos os que escrevem os que escrevem sobre esta crise e reparamos que a sua escrita está sempre do lado da morte. A mostruosidade quer mais monstruosidade e a avidez exige mais avidez. Todos apontam o dedo a todos, todos desviam o olhar de todos, mas todos se fazem com todos. Os culpados de ontem são os inocentes de hoje e os inocentes de hoje serão os culpados de amanhã.

José Manuel dos Santos
Expresso, 11/12/2010

terça-feira, 23 de novembro de 2010

As palavras


São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade