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domingo, 19 de março de 2017

Preto e Branco - XLVIII


XLIV
 
 
 
Acordo de noite subitamente,
E o meu relógio ocupa a noite toda.
Não sinto a Natureza lá fora.
O meu quarto é uma coisa escura com paredes vagamente brancas.
Lá fora há um sossego como se nada existisse.
Só o relógio prossegue o seu ruído.
E esta pequena coisa de engrenagens que está em cima da minha mesa
Abafa toda a existência da terra e do céu...
Quase que me perco a pensar o que isto significa,
Mas estaco, e sinto-me sorrir na noite com os cantos da boca,
Porque a única coisa que o meu relógio simboliza ou significa
Enchendo com a sua pequenez a noite enorme
É a curiosa sensação de encher a noite enorme
Com a sua pequenez...
 


 
 
 
Alberto Caeiro
Fernando Pessoa - Obra Poética, II Vol., Círculo de Leitores, Lisboa, 1986
 


Cores


XL
 
 
 
Passa uma borboleta por diante de mim
E pela primeira vez no Universo eu reparo
Que as borboletas não têm cor nem movimento,
Assim como as flores não têm perfume nem cor.
A cor é que tem cor nas asas da borboleta,
No movimento da borboleta o movimento é que se move,
O perfume é que tem perfume no perfume da flor.
A borboleta é apenas borboleta
E a flor é apenas flor.
 
 
 
 
 
Alberto Caeiro
Fernando Pessoa - Obra Poética, II Vol., Círculo de Leitores, Lisboa, 1986

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Branco - MLXII




Fernando Pessoa
Livro do Desassossego
(fragmento do original)


http://purl.pt/1000/1/

http://www.uc.pt/fluc/clp/inv/proj/ldod

http://projetoldod.wordpress.com/publicacoes/





Nenhum Problema Tem Solução: Um Arquivo Digital do Livro do Desassossego’ tem como objetivo a criação de uma edição/arquivo digital hipermédia dedicado à obra Livro do Desassossego (LdoD), de Bernardo Soares/Fernando Pessoa. O arquivo agregará fac-símiles digitais de todos os materiais documentais do LdoD, transcrições diplomáticas desses materiais, uma tábua de concordâncias para as principais edições portuguesas publicadas entre 1982 e 2010 (Coelho 1982; Cunha 1990; Zenith 1998; Cunha 2008; Pizarro 2010), e ainda ferramentas de pesquisa e análise textual. (...)




https://projetoldod.wordpress.com/tag/antonio-rito-silva/

Fernando Pessoa


(...) De facto, a ruptura com os monoteísmos ontológicos é uma característica da cultura do século XX, que começa com Einstein através da ruptura do espaço e do tempo objectivos, depois com Picasso que traz a ruptura da imagem objectiva da realidade, e por fim em Pessoa com a ruptura da imagem objectiva do eu. Por isso, Pessoa, mais do que um escritor português, é uma proposta nova para um mundo novo. (...)


Basilio Losada
Jornal das Letras, 13/6/2001

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Cores


     Recebi o anúncio da manhã, a pouca luz fria que dá um vago azul branco ao horizonte que se revela, como um beijo de gratidão das coisas. Porque essa luz, esse verdadeiro dia, libertava-me, libertava-me não sei de quê, dava-me o braço à velhice incógnita, fazia festas à infância postiça, amparava o repouso mendigo da minha sensibilidade transbordada.
       Ah, que manhã é esta, que me desperta para a estupidez da vida, e para a grande ternura dela!, Quase que choro, vendo esclarear-se dentro de mim, debaixo de mim, a velha rua estreita, e quando os taipais da mercearia da esquina já se revelam castanho sujo na luz que se extravasa um pouco, o meu coração tem um alívio de conto de fadas reais, e começa a conhecer a segurança de se não sentir.


Fernando Pessoa
O Livro do Desassossego, Assírio & Alvim, ed. de Richard Zenith, 1998

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Amor - XLV


Eu nunca fiz senão sonhar. Tem sido esse, e esse apenas, o sentido da minha vida. Nunca tive outra preocupação verdadeira senão a minha vida interior. As maiores dores da minha vida esbatem-se-me quando, abrindo a janela para dentro de mim pude esquecer-me na visão do seu movimento.
Nunca pretendi ser senão um sonhador. A quem me falou de viver nunca prestei atenção. Pertenci sempre ao que não está onde estou e ao que nunca pude ser. Tudo o que não é meu, por baixo que seja, teve sempre poesia para mim. Nunca amei senão coisa nenhuma. Nunca desejei senão o que nem podia imaginar. À vida nunca pedi senão que passasse por mim sem que eu a sentisse. Do amor apenas exigi que nunca deixasse de ser um sonho longínquo. Nas minhas próprias paisagens interiores, irreais todas elas, foi sempre o longínquo que me atraiu, e os aquedutos que se esfumam — quase na distância das minhas paisagens sonhadas, tinham uma doçura de sonho em relação às outras partes de paisagem — uma doçura que fazia com que eu as pudesse amar.


Fernando Pessoa
O Livro do Desassossego

http://arquivopessoa.net/textos/4209



domingo, 13 de abril de 2014

Branco - MXXX





O escritor norueguês Christian Kjelstrup é o fundador da Bookstore of Intranquility(Livraria do Desassossego), na qual irá vender apenas o Livro do Desassossego. O lema do loja: «O melhor livro do mundo». 
(...)


http://blogtailors.com/ibookstore-of-intranquilityi-na-noruega-7307671

sábado, 1 de março de 2014

Branco - MXXVI


Projecto LdoD 
Manuel Portela, Osvaldo Silvestre, António Rito Silva e Diego Giménez
Livro do Desassossego de Fernando Pessoa
Universidade de Coimbra - 10/2013

http://projetoldod.com/

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Branco - XXX


Haja ou não deuses, deles somos servos.
Fernando Pessoa
Livro do Desassossego (21)

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Branco - XXVI



Por mais que pertença , por alma, à linhagem dos românticos, não encontro repouso senão na leitura dos clássicos. A sua mesma estreiteza, através da qual a clareza se exprime, me conforta não sei de quê. Colho neles uma impressão alacre de vida larga, que contempla amplos espaços sem os percorrer. Os mesmos deuses pagãos repousam do mistério. (...)

Leio e estou liberto. Adquiro objectividade. Deixei de ser eu e disperso. E o que leio, em vez de ser um trajo meu que mal vejo e por vezes me pesa, é a grande clareza do mundo externo, toda ela notável, o sol que vê todos, a lua que malha de sombras o chão quieto, os espaços largos que acabam em mar, a solidez negra das árvores que acenam verdes em cima, a paz sólida dos tanques das quintas, os caminhos tapados pelas vinhas, nos declives breves das encostas.

Fernando Pessoa
O Livro do Desassossego

terça-feira, 30 de novembro de 2010