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sábado, 30 de dezembro de 2023

Branco - CXII

 


EL LOBITO BUENO




Érase una vez

un lobito bueno 

al que maltrataban

todos los corderos.


Y había también

un príncipe malo

una bruja hermosa

y un pirata honrado.


Todas estas cosas

había una vez.

Cuando yo soñaba

un mundo al revés.




José Agustín Goytisolo, Palabras para Julia, 1979; Lumen, Barcelona, 2015



domingo, 10 de dezembro de 2023

Cores

 

Os minutos nem contam.

Os segundos ficam pela pista

ao soltarem-se das sapatilhas de Usain Bolt.


                    -/-


O pintor cubista tinha uma empregada

cuja única tarefa era fazer com que cubos

e outros sólidos estivessem sempre à mão.


                  -/-


No café os jornais da casa

andam sempre numa azáfama

da parte da manhã.



Francisco José Craveiro de Carvalho, As Sapatilhas de Usain Bolt & Outros Tercetos, Companhia das Ilhas, 2015.

sexta-feira, 10 de novembro de 2023

Branco - CX

 


narciso desenhado

na brancura do papel - 

cada um reflecte o outro




vento branco de outono -

será que parte com ele 

o perfume da última flor?



Matsuo Bashô, O Eremita viajante [haikus - obra completa], org. e trad. de Joaquim Palma, Assírio & Alvim, Lisboa, 2016, p233.

segunda-feira, 16 de outubro de 2023

Preto - XLIII

 


o morcego voou por sobre o pianista

e desapareceu


ali havia sons a mais



Joaquim Palma, "Oferenda Poética", Campo das Letras, 1ª ed., Junho de 2005




sexta-feira, 13 de outubro de 2023

Cores

 


regresso 

- com os anos como prancha

num tubo alto




Caribaci

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Amor - LXXI





Jacques Brel

Quand on n'a que l'amour

(1956)

Carlos de Oliveira


INSTANTE




Esta coluna
de sílabas mais firmes,
esta chama
no vértice das dunas
fulgurando
apenas um momento,
este equilíbrio
tão perto da beleza,
este poema
anterior
ao vento.




Carlos de Oliveira
Sobre o Lado Esquerdo, P. Dom Quixote, Lisboa, 1968

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Branco - CII







Inteirou-se da cidade
e partiu.

De novo a estrada
(e o que não viu).




A.Oliveira
Lugares de rio

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Amor - LXVII



2.

Eu cantarei de amor tão docemente,
Por uns termos em si tão concertados,
Que dois mil acidentes namorados
Faça sentir ao peito que não sente.
Farei que amor a todos avivente,
Pintando mil segredos delicados,
Brandas iras, suspiros magoados,
Temerosa ousadia e pena ausente.
Também, Senhora, do desprezo honesto
De vossa vista branda e rigorosa,
Contentar-me-ei dizendo a menor parte.
Porém, pera cantar de vosso gesto
A composição alta e milagrosa
Aqui falta saber, engenho e arte.


Luís de Camões
Sonetos - Edição de Lobo Soropita (1595), in Lírica, Círculo de Leitores, 1980

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Branco - XCIX


Ah, ser de tudo apenas no reboco
andar de borco                       ser louco
e olhar o obtuso da batalha                      secreto
rouco.


A.Oliveira
Lugares de lume

terça-feira, 9 de maio de 2017

Vermelho - XCII



Num dia como qualquer outro
o espaço abriu-se enfim
em duas partes iguais
enquanto entre as pedras
pontualmente
nasciam entre ervas selvagens.

Então as coisas
apressaram-se a aprender a ler
a escrever e a contar.

Um carro vermelho desceu a falésia
como um cão com sede
e o sol veio pousar na minha mão.

Um cataclismo ainda criança
sem palavras
destruiu toda uma cidade.

Lá longe
abriram-se janelas
na superfície do mar.



Áfricas 67




Artur do Cruzeiro Seixas
Obra Poética - I, Edições Quasi-Fundação Cupertino de Miranda, 2002

Cores





Trova do Vento que Passa
Adriano Correia de Oliveira (música)
Manuel Alegre (poema)
(1963)


Uxía (voz)
João Gentil (acordeão)
(2015)



sexta-feira, 14 de abril de 2017

Amor - LXVI




Janita Salomé
Credo

(1994)





CREDO


Creio nos anjos que andam pelo mundo,
creio na deusa com olhos de diamantes,
creio em amores lunares com piano ao fundo,
creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes;

creio num engenho que falta mais fecundo
de harmonizar as partes dissonantes,
creio que tudo é eterno num segundo,
creio num céu futuro que houve dantes,

creio nos deuses de um astral mais puro,
na flor humilde que se encosta ao muro,
creio na carne que enfeitiça o além,

creio no incrível, nas coisas assombrosas,
na ocupação do mundo pelas rosas,
creio que o amor tem asas de ouro. Amém.
 
 
 
 
Natália Correia
 
 
 






sábado, 25 de março de 2017

Azul - CLXXXV


Viagem





Remo
(e isso é
tudo).

Afasto-me
(e isso
basta).






A.Oliveira
Lugares de rio

terça-feira, 21 de março de 2017

Branco - XCVII



AS FOTOGRAFIAS




As fotografias precedem a memória,
são a realidade parada de luz.
As fotografias evoluem como os olhos,
entre reformulações e malogros.
As fotografias não amarelecem, queimam,
não se enchem de pó mas de granizo.
As fotografias duram mais que a memória,
mas não muito mais.



Pedro Mexia
Em Memória, Gótica, Lisboa, 2000


segunda-feira, 20 de março de 2017

Verde - L


Superfícies Apetecidas






I

Está a terminar esta estação,
indolente como as causas
que se cansam antes das consequências.

As temperaturas perdem-se
e a maioria dos lugares não tem sítio certo.

Com inconsolável desvelo
os rios
deixam-se atravessar por quem não deve
enquanto a felicidade verde,
disfarçada de companhia,
a custo se contém nos passeios de água doce.

Só as saudações menores resistem:
não unem nem separam.




Boaventura de Sousa

Viagem ao Centro da Pele, Edições Afrontamento, Porto, 1995

domingo, 19 de março de 2017

Preto e Branco - XLVIII


XLIV
 
 
 
Acordo de noite subitamente,
E o meu relógio ocupa a noite toda.
Não sinto a Natureza lá fora.
O meu quarto é uma coisa escura com paredes vagamente brancas.
Lá fora há um sossego como se nada existisse.
Só o relógio prossegue o seu ruído.
E esta pequena coisa de engrenagens que está em cima da minha mesa
Abafa toda a existência da terra e do céu...
Quase que me perco a pensar o que isto significa,
Mas estaco, e sinto-me sorrir na noite com os cantos da boca,
Porque a única coisa que o meu relógio simboliza ou significa
Enchendo com a sua pequenez a noite enorme
É a curiosa sensação de encher a noite enorme
Com a sua pequenez...
 


 
 
 
Alberto Caeiro
Fernando Pessoa - Obra Poética, II Vol., Círculo de Leitores, Lisboa, 1986
 


Cores


XL
 
 
 
Passa uma borboleta por diante de mim
E pela primeira vez no Universo eu reparo
Que as borboletas não têm cor nem movimento,
Assim como as flores não têm perfume nem cor.
A cor é que tem cor nas asas da borboleta,
No movimento da borboleta o movimento é que se move,
O perfume é que tem perfume no perfume da flor.
A borboleta é apenas borboleta
E a flor é apenas flor.
 
 
 
 
 
Alberto Caeiro
Fernando Pessoa - Obra Poética, II Vol., Círculo de Leitores, Lisboa, 1986

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Verde - XLIX


Disfarce



Verdura de hastes
(de couval).

Nos trevos
um amarelo acoitado
num disfarce ferido
(matinal).




A.Oliveira
Lugares de rio

sábado, 31 de dezembro de 2016

Branco - XCIV


EU VI AS VOZES




Eu vi as vozes claramente vistas

e quis ver mais:

é este o quase branco dos avós

e dos avós desses avós sem pais?



Não ouço o silêncio que desliza

pelo branco,

nem quero saber mais:

eu vi as vozes sem sons nem pranto.





José António Matos

Que venham as aves - poemas 2005/2015, Real Gana, i.e., Figueira da Foz, 2016