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terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Branco - CI


     Não só os sentimentos criam palavras, também as palavras criam sentimentos. As palavras formam uma arquitectura de ferro. São a vida e quase toda a nossa vida - a razão e a essência desta barafunda. É com palavras que construímos o mundo. É com palavras que os mortos se nos impõem. É com palavras, que são apenas sons, que tudo edificamos na vida. Mas agora que os valores mudaram, de que nos servem estas palavras? É preciso criar outras, empregar outras, obscuras, terríveis, em carne viva, que traduzam a cólera, o instinto e o espanto.



Raul Brandão
(1917)

Húmus, Quidnovi, Porto, 2008

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Cores



Devo explicar que todas estas ilhas têm uma nuvem sua, uma nuvem própria, independente das outras nuvens e do céu, e com uma vida à parte no universo. Pode, por exemplo, estar o vento que estiver, vento que arraste todos os farrapos do ar, que a nuvem lá está presente tomando várias formas e feitios. Hoje é branca e pequena. À tarde muda de aspecto, ao mesmo tempo que o Pico muda de cor. Não sei que posição toma a nuvem, que em cima fica azul e na base doirada. Espero a hora de assombro em que esta montanha enorme emerge toda vermelha do mar verde, num céu que empalidece e com a nuvem cor-de-rosa agarrada a um dos flancos. É um espectáculo extraordinário: a vida da nuvem e a cor da montanha. Na base manchas roxas - verdura de pinhais, e no alto o barrete vermelho aguçado até à extremidade.


Raul Brandão
(1926)
As Ilhas Desconhecidas, Quetzal, 2011


segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Cores




As Ilhas Desconhecidas são notas tiradas na viagem aos Açores e à Madeira, de 8 de Junho a 29 de Agosto de 1924, com a habitual espontaneidade do escritor que regista as suas primeiras impressões. Pode dizer-se sem exagero que este livro potencia e afina as qualidades de Brandão paisagista, porque, se n' Os Pescadores são notáveis e sui generis as notas sobre a luz e os seus infinitos cambiantes, a linguagem e a adjectivação da cor neste livro atingem uma originalidade definitivamente marcante. O Brandão d'Os Pescadores é o Brandão da luz; o Brandão d'As Ilhas Desconhecidas é o da cor. Se naquela obra os termos referentes à luz (e seus cambiantes) são mais frequentes, nesta, os termos respeitantes à cor (e seus cambiantes) são muito mais frequentes. O seu livro é, pois, um poema à luz e principalmente às cores insulares. 


http://www.culturacores.azores.gov.pt

Cores


http://thecalibraria.blogspot.pt


Raul Brandão visitou os Açores no verão de 1924, no âmbito das visitas dos intelectuais então organizadas sob a égide dos autonomistas. Dessa viagem resultou a publicação da obras As ilhas desconhecidas - Notas e paisagens (Lisboa, 1926), uma das obras que mais influíram na formação da imagem interna e externa dos Açores. Basta dizer que é em As ilhas desconhecidas que se inspira o conhecido código de cores das ilhas açorianas: Terceira, ilha lilás; Pico, ilha negra; S. Miguel, ilha verde...



http://pt.wikipedia.org