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domingo, 29 de junho de 2014

Vermelho - LXVIII

  Sonho com a primeira cereja do Verão. Dou-lha, e ela leva-a à boca, olha-me com olhos cálidos, de pecado, enquanto faz sua a carne. De repente, beija-me e devolve-ma com a língua. E lá vou eu tocado para sempre, com o caroço da cerveja todo o dia a rolar no teclado dos dentes como uma nota musical silvestre. 
 À noite: "Tenho uma coisa para ti, amor."
   Poiso na boca dela o caroço da primeira cereja.
   Mas, na realidade, ela não quer ver-me nem falar-me.



Manuel Rivas
(1995)
Que me Queres, Amor?, Dom Quixote, 1998
(trad.: Pedro Tamen)

quinta-feira, 6 de março de 2014

Amor - XXXIX




Manuel Rivas
QUE ME QUERES AMOR?



http://www.portugal-linha.pt/literatura/novidade.html

domingo, 21 de agosto de 2011

Vermelho - X

Os seus lenzos representaban agora moitedumes de xentes entrando ou saindo do metro, portas de retretes e destellos luminosos de sereas policiais. Bernabé foi convocado unha vez máis. Cando lle pediu o seu parecer, a mirada de Espiña xa non reflexaba a inxenua sumisión doutros tempos. Tiña un ameazante brillo que xurdía da negritude fonda das olleiras.
  -Non está mal, Espiña, non está mal - dixo Candela conciliador -. Pero moito temo que a arte de hoxe, na fin de milenio, procure a serenidade das cumes nevadas.
      Espiña non respondeu. Acompañou ó crítico ata a porta da pensión e ó despedirse unicamente dixo: Terán cumes nevadas.
   Aquela noite pintou un branquísimo lenzo. Branco sobre branco. Logo fixou um corte de navalla na palma da man e co seu sangue pintou unha vaca. Unha vaca vermelha e feliz sobre a neve.




Manuel Rivas
Un millón de vacas (O artista de provincias)

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Branco - XXIX

Fíxose un silencio longuísimo. Coma o dunha fotografía.

Manuel Rivas
Un millón de vacas, in O Segredo da Terra, D. Quixote, 2003




Ansel Adams 
Monolith, The Face of Half Dome (1927)


segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Manuel Rivas

"O doutor Da Barca sorriu pensativo. Depois disse: A única coisa boa das fronteiras são as passagens clandestinas. É tremendo o que pode fazer uma linha imaginária traçada um dia na cama por um rei débil mental ou desenhada à mesa por uns poderosos como quem joga um póquer. (...) As fronteiras de verdade são aquelas que mantêm os pobres afastados do bolo".



Manuel Rivas
O Lápis do Carpinteiro, Publicações D. Quixote, 2000

sábado, 25 de dezembro de 2010

Branco-I

"Às vezes o defunto desmontava da orelha, saía da cabeça e tardava a regressar. Deve andar por aí, à procura do filho, pensava o guarda Herbal com alguma nostalgia, porque afinal o pintor dava-lhe conversa nas horas de vigília, nas noites de prevenção. E ensinava-lhe coisas. Por exemplo, que o mais difícil de pintar era a neve. E o mar, e os campos.As amplas superfícies de aparência monocolor. Os Esquimós, disse-lhe o pintor, chegam a distinguir quarenta cores na neve, quarenta espécies de brancura. Por isso, os que melhor pintam o mar, os campos e a neve são as crianças. Porque a neve pode ser verde e o campo embranquecer como as cãs de um velho camponês".


Manuel Rivas
O Lápis do Carpinteiro, Publicações D. Quixote, 2000