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sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Cores


(...) vi a engrenagem do amor e a modificação da morte, vi o Aleph, de todos os pontos, vi no Aleph a terra, vi o meu rosto e as minhas vísceras, vi o teu rosto e senti vertigem e chorei, porque os meus olhos tinham visto esse objecto secreto e conjectural cujo nome os homens usurparam, mas que nenhum homem olhou: o inconcebível universo.   
     Senti infinita veneração, infinita lástima.
     - Ficarás tonto por bisbilhotar assim onde não és chamado - disse uma voz enfadonha e alegre.  - Mesmo que queimes o juízo, não me pagarás num século esta revelação. Que observatório formidável, hein, Borges!
  Os pés de Carlos Argentino ocupavam o degrau mais alto. Na brusca penumbra, consegui levantar-me e balbuciar:
     - Formidável. Sim, formidável!
 A indiferença da minha voz causou-me estranheza. Ansioso, Carlos Argentino insistia:
     - Viste tudo bem, a cores?



Jorge Luis Borges 
(1957)
O Aleph, Editorial Estampa, 4ª ed., 1993




terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Vermelho - LXXVIII


A Rosa
A rosa,
a imarcescível rosa que não canto,
a que é peso e fragrância,
a do negro jardim na alta noite,
a de qualquer jardim e qualquer tarde,
a rosa que ressurge da mais ténue
cinza pela arte da alquimia,
a rosa de Ariosto ou a dos Persas,
a que está sempre só,
aquela que é sempre a rosa das rosas,
a jovem flor platónica,
a ardente e cega rosa que não canto,
a rosa inatingível.

Jorge Luís Borges
Fervor de Buenos Aires
(1923)

Obra Poética, vol 1, Quetzal, 2012 (trad. de Fernando Pinto do Amaral)


segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Preto e Branco - XLI

XADREZ

II

Ténue rei, sesgo bispo, encarniçada 
Dama, torre directa e peão ladino 
Sobre o negro e branco do caminho 
Buscam e travam sua batalha armada. 

Não sabem que a mão assinalada 
Do jogador governa o seu destino, 
Não sabem que um rigor adamantino 
Lhes sujeita o arbítrio e a jornada. 

Também o jogador é prisioneiro 
(A sentença é de Omar) de outro tabuleiro 
De negras noites e de brancos dias. 

Deus move o jogador e este a peça. 
Que Deus atrás de Deus a trama tece 
De pó e tempo e sonho e agonias?


Jorge Luís Borges
O Fazedor
(1960)
Difel, trad. de Miguel Tamen, revista por Luísa Costa Gomes e Juan Carlos Vásquez (2002)


quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Preto e Branco - II


XADREZ

  I

No seu grave recanto os jogadores
Regem as lentas peças. O tabuleiro
Os demora até à alba em seu severo
Âmbito em que se odeiam duas cores.

Dentro irradiam mágicos rigores
As formas: torre homérica, ligeiro
Cavalo, sagaz dama, rei postreiro,
Oblíquo bispo e peões agressores.

Depois dos jogadores se terem ido,
Depois do tempo os ter consumido,
Decerto não terá cessado o rito.

No oriente incendiou-se esta guerra
Cujo anfiteatro é hoje toda a terra.
Como o outro, este jogo é infinito.


Jorge Luís Borges
O Fazedor (trad. de Miguel Tamen)