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sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Branco - L

    Para quem o lê, o romance é sempre um Bildungsroman, uma iniciação ao mundo. Ao abrangê-lo por todos os lados da palavra, ele oferece necessariamente uma organização do caos que pressentimos, nomeia-o. (...)
       Foi o romance quem criou o mundo, não foi?

Jorge Silva Melo
Jornal Público, 10/09/2005

domingo, 15 de janeiro de 2012

Arco-Íris

   Carvalho saiu neste ponto, com a língua e a cabeça espessas. Aproximou-se do balcão para pedir uma cerveja e viu-se encostado a uma mulher castanha com uns imensos olhos verdes e o corpo coberto por um poncho estreado em alguma travessia dos Andes.
   - Olá!
   - Olá. Tu és...
   - Dashiell Hammett.
   Ela riu e insistiu depois a sério que lhe dissesse o nome.
   - Apresentou-nos o Horácio no lançamento do livro do Juan. Não é certo? Eu saí porque estava cansada de anedotas. Não gosto nada de toda essa história do romance negro. Penso o mesmo que Varese: Quando a burguesia não pode conservar o controlo do romance, começa a pintá-lo de cores. Leio-te. Gosto muito do que escreves.
   Carvalho, desconcertado, perguntou a si mesmo se Biscuter ou Charo teriam publicado alguma coisa com o seu nome. Pensou pedir-lhes explicações quando chegasse a casa.
   - Pois ultimamente escrevo com certa apatia.
  - Nota-se, nota-se. Mas isso passa-nos a todos. Penso o mesmo do Cañedo Marras: os grandes cansaços pressagiam os grandes entusiasmos.
   Carvalho tinha vontade de lhe dizer: tira o poncho, meu amor, e vamos para uma cama negra, branca, redonda, quadrada, tanto faz, porque quando a burguesia não pode conservar o controlo da cama, começa a adjectivá-la.

Manuel Vázquez Montalbán
Os Mares do Sul
(1979)

terça-feira, 19 de abril de 2011

Pós-Literatura

O que se tornou hegemónico e pandémico (as livrarias aí estão para o confirmar) não é o romance como forma aberta a todos os discursos e de certo modo indefinível como género, mas as variações infinitas e a mediocridade mimética a que Paul Valéry, no princípio do século XX, passou uma certidão de óbito ao dizer que já não era possível seguir o modelo narrativo do tipo daquele que está implícito numa frase como “La marquise sortît à cinq heures”. (…)

Este romance, que atravessa fronteiras com toda a facilidade e é publicado quase ao mesmo tempo em Nova Iorque, Londres, Paris, Madrid e Lisboa, é o herdeiro de uma literatura de entretenimento que surgiu no século XIX – uma literatura que não é uma forma de conhecimento mas de reprodução, um instrumento de promoção, dominação e legitimação social. É o pacto servil da literatura com este tipo de romance que leva Richard Millet a dizer que entrámos na época da pós-literatura.


António Guerreiro
Atual, 15/1/2011

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Romance

A hegemonia do romance do nosso tempo, melhor dizendo, a pandemia romanesca que levou, há alguns anos, o francês Henri Meschonnic - autor de uma vasta obra de teoria literária, tradutor da Bíblia e poeta - a dizer, num livro de 2001, que o romance é o cancro da literatura (...) não pode ser compreendida se não a ligarmos ao triunfo do jornalismo e das técnicas de storytelling. (...)
Em França, pela rentrée (Setembro/Outubro), publicam-se sete a oito centenas de novos romances. A maior parte deles, poucos meses depois, tem um destino muito francês: a guilhotina. Mas os editores apostam na lei da estatística: entre tantos, o ínfimo número que triunfa conquista um mercado de milhões.

António Guerreiro
Atual, 15/1/2011