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quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Azul - MXXII



Meu coração é como um peixe cego,
Só o calor das águas o orienta,
E por isso me arrasta aonde me nego;
De puros impossíveis me sustenta.

O que eu tenho sentido é mais que mar;
Em força e azul, cinco oceanos soma:
Mas ainda há tristeza a carregar
E as coisas que só pesam pelo aroma.

Há o país da espera e dos sinais,
Se feitos, apagados na neblina,
E a terra de tudo e muito mais,
Onde a minha alma é quási menina

Sentada no jardim de nunca - a triste!
Se vale a pena em flor, essa ainda rego.
Tudo o mais - nem me agrava, nem existe:
Árida distracção, lânguido apêgo..




Vitorino Nemésio
Eu, Comovido a Oeste
(1940)

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Azul - MXVII


Meu coração é como um peixe cego,
Só o calor das águas o orienta,
E por isso me arrasta aonde me nego;
De puros impossíveis me sustenta.

O que eu tenho sentido é mais que mar;
Em força e azul, cinco oceanos soma:
Mas ainda há tristeza a carregar
E as coisas que só pesam pelo aroma.

Há o país da espera e dos sinais,
Se feitos, apagados na neblina,
E a terra de tudo e muito mais,
Onde a minha alma é quási menina

Sentada no jardim de nunca - a triste!
Se vale a pena em flor, essa ainda rego.
Tudo o mais - nem me agrava, nem existe:
Árida distracção, lânguido apêgo..



Vitorino Nemésio 
Eu, comovido a Oeste
(1940)

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Azul - XMIV

     Margarida, cada vez mais interessada pelo estudante das Fontinhas, insistiu:
      - Mas... seja franco! É poeta? - E, fitando a ponta do papel que o rapaz, na precipitação, não escondera bem no bolso, acrescentou: - Então não me acha digna de receber essa pequena confidência?... Somos ambos ilhéus... Estamos aqui sozinhos, longe dos nossos... Leia, que ninguém ouve!
        O rapaz, quase trémulo, fitou Margarida desconfiado. Depois, puxando do papelinho, chegaram-se ambos para a luz, e ele leu:

                     Também eu!, também eu velo a noite no porto
                     Tão azul, apesar da escuridão perfeita...


Vitorino Nemésio
Mau Tempo no Canal
(1944)

Cores

    Margarida retirou a cabeça dos vidros e debruçou-se na amurada.
       À medida que o vapor se afastava, a cidade, feia ao perto e de casario tapado por Canta-Galo, a Misericórdia e a Rocha, desenhara na rede das luzes o seu corpo de sereia estirada. A bombordo perfilavam-se os vultos escalvados e negros dos ilhéus das Cabras, como uma baleia seguida do seu baleote inviável. A estibordo, fechado de pinheiros e muralhas, o negrume do Monte Brasil.
         Margarida deixou-se vaguear naquele recanto do convés. Um velho atlético, de barretinho de seda, dormia de boca aberta numa cadeira de lona, com os óculos na manta de viagem. Ao fundo, aproveitando o foco dos mostradores dos manípulos de manobra e a tampa especada da grande clarabóia que arejava a sala de jantar, um rapaz fino e triste, vestido pobremente, encarniçava-se sobre um lápis e um bocado de papel, contando pelos dedos. Talvez um caixeiro-viajante... Talvez um poeta... Para caixeiro-viajante era melancólico demais... Os caixeiros de amostras usavam uns bigodes floridos e fatos espampanantes. Ele tinha um buçozinho sem guias e as calças por vincar.

Vitorino Nemésio
Mau Tempo no Canal
(1944)

sábado, 15 de dezembro de 2012

Cores

     Na Praia do Almoxarife, às chuvas de um Outono precoce seguiram-se dias lindos. Os carros carregados dos últimos balseiros de uva chiavam para o lado das adegas. Os penedos que fechavam a língua de areia num anel douravam-se ao entardecer, e toda a lava das vinhas - o biscoito - ficava negra e despida debaixo de um sendal cor de palha, a que a folha das parras, crestada e caída uma a uma, dava uma nota sanguínea. João Garcia recolhia de um dos seus grandes passeios solitário ou em companhia do padrinho. Passavam aos grandes bebedoiros do gado, que deitavam água por fora e que as cabeças das vacas, rijamente enramadas, babavam bebendo devagar. Então apareci uma sainha curta ao longe, a forma tímida e vestida de escuro de Carlota, o bordão comprido e compassado ao encontro de João, apanhava uma folha da rama de milho caída das seves abertas e, desfiando-a nos dentes, aproveitava o minuto preciso para que todos se juntassem:
         - Vais hoje ao quino? Não faltes...
     E aquela intenção, sublinhada no beicinho rente e rápido, crava-se na alma de João como uma gota que dá falso rebate de chuva ou a pontinha insidiosa de uma alfinete perdido.

Vitorino Nemésio
Mau Tempo no Canal
(1944)