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sábado, 30 de dezembro de 2023

Cores


Companhia das Letras, Lisboa, 2021



Matou-se capivara gorda, por fim. Dum geralista roto, ganhamos farinha-de-burití, sempre ajudava. E seguimos o corgo que tira da lagoa Sussuarana, e que recebe o do Jenipapo e a Vereda-do-Vitorino, e que verte no Rio Pandeiros - esse tem cachoeiras que cantam, e é d'água tão tinto, que papagaio voa por cima e gritam, sem acordo: - É verde! É azul! É verde! É verde!... E longe pedra velha remelêja, vi. Santas águas, de vizinhas. E era bonito, no correr do baixo campo, as flores do capitão-da-sala - todas vermelhas e alaranjadas, rebrilhando estremecidas, de reflexo. - "É o cavalheiro-da-sala..." - Diadorim falou, entusiasmado. Mas o Alaripe, perto de nós, sacudiu a cabeça. - "Em minha terra, o nome dessa" - ele disse - "é dona-joana... Mas o leite dela é venenoso..."

 

(p50-51)

terça-feira, 28 de novembro de 2023

Preto e Branco - LI

 

     Levantou-se e foi ao espelho de corpo inteiro. Despiu-se e observou-se. Estava todo em bom estado de conservação. A pele não tinha rugas, não tinha gretas, não havia gordura a mais, ou pêlo a mais, ou músculo indesejável. O perfeito maxilar quadrado. A viril sobrancelha que parecia natural. A plena madura juventude.

     Vestiu-se devagar. A camisa branca era uma afirmação que não estava preparado para fazer. Mas era o que tinha trazido nesta viagem e Pedro Levi resignou-se a mostrar o que não sentia. Preto e branco, sim ou sopas, desportivo. Tratar o corpo como um quadro de paisagem, era o que tinha aprendido na escola. Não somos como os outros.




Luísa Costa Gomes, Olhos Verdes (1994), Público, 2002, p38

terça-feira, 21 de novembro de 2023

Arco-Íris

 

ÚLTIMA TENTAÇÃO





     E então ela quis tentá-lo definitivamente. Olhou bem em volta, com extrema atenção. Mas só conseguiu encontrar uma pera pequenina e pálida.

     Ficaram os dois numa desesperante frustração.

     Não há dúvida que o Paraíso está a tornar-se cada vez mais chato!




mário-henrique leiria, Novos Contos do Gin, Editorial Estampa, 1973 - 5ª edição, 1999, p29.

segunda-feira, 30 de outubro de 2023

Branco - CVII

 

A MERCEARIA




Numa mercearia, lá atrás, um póster de Marilyn Monroe.

Depois vemos a mercearia. Os alimentos mal arrumados, a sujidade no balcão e em várias prateleiras.

Depois vemos o casal que trabalha na mercearia, provavelmente os seus donos. São feios, terrivelmente feios. Os dois.

Lá atrás, o póster de Marilyn Monroe.




Gonçalo M. Tavares, Short Movies, Ed. Caminho, Alfragide, 2011, p101.


sexta-feira, 27 de outubro de 2023

Branco - CVI

 


O espelho que não conseguia dormir 


Era uma vez um espelho de mão que quando ficava sozinho e ninguém nele se via sentia-se muito mal, como se não existisse, e talvez tivesse razão; mas os outros espelhos faziam troça dele, e quando à noite os guardavam na mesma gaveta do toucador dormiam a sono solto, satisfeitos, alheios à preocupação do neurótico.




Augusto Monterroso, A ovelha negra e outras fábulas, Angelus Novus Editora, Coimbra, 2008, p31.

quinta-feira, 1 de março de 2018

Verde - LII




2


     A mulher que eu amo escreveu-me do outro lado das árvores: "Confio. O céu está verde..."



Manuel da Silva Ramos
os três seios de Novélia (1969) - Dom Quixote, Lisboa, 2008

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Verde - LI



     Novélia e eu nunca falámos. Para quê? Às cinco e um quarto da tarde em Portugal os nossos olhos encontram-se. Às vezes penso nisso. No rigor. Na matemática. Então descubro que as nossas caras são duas equações a uma incógnita com o mesmo resultado (os olhos) sempre. Mas as equações são sempre diferentes. Variam com o frio, com a humidade, com a menstruação. Novélia e eu nunca falámos. Nunca dissemos nada um ao outro. Apenas esperamos. Às vezes pergunto-me (pergunto-te): és casada? Virgem? Tens um filho loiro ou verde? Quantos homens passaram pelos teus lábios? Quantas esperanças nasceram a par dos teus seios? Quando me conheceste? Quando nos conhecemos?
       Depressa Novélia: existes ou não? Diz. Diz.




Manuel da Silva Ramos
(1969)
os três seios de Novélia, Dom Quixote, Lisboa, 2008


domingo, 14 de janeiro de 2018

Amor - LXX



Comíamos. Como uma horda de seres vivos, cobríamos gradualmente a terra. Ocupados como quem lavra a existência, e planta, e colhe, e mata, e vive, e morre, e come. Comi com a honestidade de quem não engana o que come: comi aquela comida e não o seu nome. Nunca Deus foi tão tomado pelo que Ele é. A comida dizia rude, feliz, austera: come, come e reparte. Aquilo tudo me pertencia, aquela era a mesa de meu pai. Comi sem ternura, comi sem a paixão da piedade. E sem me oferecer à esperança. Comi sem saudade nenhuma. E eu bem valia aquela comida. Porque nem sempre posso ser a guarda de meu irmão, e não posso mais ser a minha guarda, ah não me quero mais. E não quero formar a vida porque a existência já existe. Existe como um chão onde nós todos avançamos. Sem uma palavra de amor. Sem uma palavra. Mas teu prazer entende o meu. Nós somos fortes e nós comemos. Pão é amor entre estranhos.



Clarice Lispector
A Repartição dos Pães, in Contos de Clarice Lispector, Relógio d'Água Editores, Lisboa, 2006

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Mulheres - XIV


Sabe quem são os seus leitores?


As mulheres adoram os meus livros. Talvez por escrever sobre relações. Alguém disse que só as mulheres lêem romances. Se pensar nos meus amigos, vejo que é verdade.

Mas é muito masculino na escrita. Como acede ao universo das mulheres?

Não concordo. Estou interessado em escrever sobre homens e mulheres. Como acedo? As mulheres têm facilidade em falar de sentimentos, descrevem como vivem, e falo muito com mulheres. As suas conversas fascinam-me.




Hanif Kureishi


Expresso - Actual, 1/12/12 (entrevista de Ana Soromenho)

domingo, 17 de dezembro de 2017

Amor - LXVIII


(...)

Referiu numa entrevista que, numa sociedade obcecada pelo trabalho, o sexo é o único lugar que nos resta para o descontrolo e que a si lhe interessa o descontrolo.


É a única coisa que pode arruinar uma carreira. Veja o escândalo na América com o caso Petraeus. Podemos pôr a questão no plano do sexo, mas não está certo. Este homem quer esta mulher. Pode parecer estúpido, mas é uma coisa tremenda. Porque ele sabe que é um momento, pode perder tudo, é um grande risco. É uma história de traição e de ruína e, no entanto, ele não consegue evitar. Até onde podemos ir? Não é só sexo. É muito mais misterioso e enorme. Por isso é que estes escândalos interessam tanto às pessoas. São coisas importantes sobre a vida e os seres humanos. Todos os grandes romances são sobre isso: Madame Bovary, Anna Karenina, António e Cleópatra. Todos arriscaram a vida por causa do desejo. A única coisa interessante é o amor.



Hanif Kureishi

Expresso - Actual, 1/12/12 (entrevista de Ana Soromenho)

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Branco - XCVIII



Penso que devíamos ler apenas os livros que nos mordem e nos picam. (...) um livro tem de ser o machado para o mar gelado que se encontra dentro de nós. É o que eu penso.

Franz Kafka

Os Contos - 2º vol., Assírio & Alvim, 2012

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Cores


 
"Rio Negro



(…)



Pelo horizonte dissolvem-se planícies imensas pintadas de erva. Faltam nomes para tantos tons de uma mesma cor e Jorge inventa-os: vesbelho, letusto, zafaio, lusvigo. Depois esquece-se a que pertencem, mas não tem importância.

As sombras das nuvens correm pela erva e essa é outra cor ainda, uma cor escura a correr. Que nome tem uma cor que foge? Jorge deita-se e observa as nuvens. É um jogo antigo, pegar no branco e moldá-lo com a imaginação até que ele seja um dragão, um monstro, uma sereia. Imagem, imago, imitaginem. Quem foi o primeiro a fazer ideias com nuvens?

Um tigre passa-lhe por cima e é dourado como poucos. Leva um brilho novo e, ao desfazer-se, fica à vista uma bola amarela que não é daquele céu. Jorge fita a bola de luz até os olhos começarem a doer. É um sol de outros, pensa, uma luz que anda perdida. À memória chegam-lhe as histórias fantásticas lidas muitas vezes, mundos que acabam, viagens pelo espaço, seres longínquos capazes de destruir ou de criar. Aquele amarelo é cheio de possibilidades e não há nuvens que o possam voltar a esconder.

Nessa mesma noite, quando Jorge fecha os olhos para adormecer, a bola amarela espera-o brilhante. Foi a primeira vez que dormiu com uma luz acesa por dentro e passou a ser essa a cor da sua noite."
 
 
 
 
 

Nuno Camarneiro
NO MEU PEITO NÃO CABEM PÁSSAROS, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2011

 
 

segunda-feira, 20 de março de 2017

Branco - XCVI


    
     "COMO É GLORIOSO iniciar uma nova carreira, e aparecer subitamente no mundo culto, com um livro de descobertas na mão, tal um cometa inesperado que fulge no espaço!
     Não, não mais guardarei o meu livro in-petto; ei-lo, senhores, leiam-no. Iniciei e terminei uma viagem de quarenta e dois dias à roda do meu quarto. As observações interessantes que recolhi e o  prazer contínuo que experimentei ao longo do caminho fizeram com que desejasse torná-la pública; a certeza de ser útil conduziu-me a esta decisão. Sente o meu coração uma satisfação inexprimível quando penso no número infinito de infelizes a quem ofereço um meio garantido contra o tédio e um alívio para os males que sofrem. O prazer que se encontra ao viajar no próprio quarto está ao abrigo da inquieta inveja dos homens; é independente da fortuna.
     Terá uma pessoa de ser, efectivamente, bastante infeliz, assaz abandonada, para não ter um reduto onde possa refugiar-se e esconder-se de toda a gente?
      Eis todos os condimentos da viagem."
(...)
Xavier de Maistre
Viagem à roda do meu quarto
 (1795)
& etc - Edições Culturais do Subterrâneo, Lisboa, 2002

domingo, 19 de março de 2017

Cores


"Lisboa
 
 
 
(...)
 
 
 
Fernando é uma parte do seu quarto, por isso os seus sonhos se agarram às paredes. Ao tocar-lhes sente a consistência, a temperatura e a humidade do que sonhou. Por vezes, quando acorda, sente o cheiro a medo e o calor dos pesadelos. Há dias em que o quarto cheira a Índia, onde Fernando nunca esteve senão em sonhos de longe, com aromas e cores sem nome. Há outros em que os cheiros do passad0 se entranham nos lençóis e os pesadelos são leves, feitos de vozes doces que chamam por ele.
 
(...)
 
 
Viver num sítio é ser esse sítio, emprestar-lhe uma alma e receber outra em troca. As biografias deviam ordenar-se por lugares, e não por datas. Nesta rua fui assim, numa outra fui diverso. Ninguém sabe descrever uma cidade, são as cidades que nos escrevem a nós."
 
(...)
 
 
 
 
Nuno Camarneiro
 
NO MEU PEITO NÃO CABEM PÁSSAROS, D. Quixote, Lisboa, 2011

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Cores



     "Gosto de te ter por perto, assim com estás agora, ao alcance de te querer. Se eu quisesse juntava-me a ti e seria mar também. Mas não quero, ainda não. Tenho os meus deuses para inventar e acredito ainda em cores que não são tuas. Um dia, um dia é o tempo de tudo o que haveríamos de ter sido, e eu ainda tenho dias para mundos maiores do que tu. Se eu quisesse, tu eras um segundo pequeno de uma vida por fazer, sabes que o posso querer?
     Agora durmo, agora és noite e tens a cor de tudo o resto (o mar não dorme, pois não?). Não sonhas, mas és sonhado e não há nada que possas fazer.
     O tempo das ondas parece-nos curto porque as vidas pequenas que vivemos nos deixam ainda ver tantas. Para o vento as ondas são montanhas azuis. Homens que viajam são o vento de quem espera e de quem fica. Tempo que vai e volta e se esquece no passar. Os homens eternos chamam deuses aos ventos e riem sozinhos ao acordar."
 
 
 
 
 
Nuno Camarneiro
 
NO MEU PEITO NÃO CABEM PÁSSAROS, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2011.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Branco - XCI



O segredo da sobrevivência é uma imaginação defeituosa. A incapacidade dos mortais para imaginar as coisas como elas realmente são é o que lhes permite viver, uma vez que um vislumbre momentâneo, incontido, da totalidade do sofrimento do mundo os aniquilaria imediatamente, como uma lufada da mais letal emanação de canos de esgoto.



John Banville
Os Infinitos (2009), ASA, 2011

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Cores


(...)
Do alto da encosta, quando se descobre o panorama do vale, o que mais salta à vista é a chateza absoluta dessa linha de horizonte: um soco puído, um bloco aplainado onde se enterra o enclave fechado e recortado do vale, com as curtas ravinas afluentes, dispostas como as nervuras de uma folha. A ossatura rochosa aflora a cada instante ao longo das encostas em corcovas gastas, encrustadas do branco baço e amortecido do líquen que é uma das cores obcecantes da Bretanha. Uma vegetação áspera e pouco densa ocupa todos os intervalos: rastos de juncos secos, arbustos rasteiros, de um verde mais escuro, de giestas e tojos que se estendem em placas dartrosas, carvalhos raquíticos, pinhais anões que mergulham em torrentes negras para o fundo da ravina. Nos sítios onde o cume das encostas se une ao planalto, mal a ladeira diminui, matas rasteiras de castanheiros agarram-se por toda a parte, enraizados e hirsutos como os pêlos de uma nuca tosquiada; no Inverno, um emaranhado de bétulas despojadas, de ramiscos muito finos, cobre o fundo da ravina de uma penugem cor de rato, tão ténue que se confunde com a subida da bruma.
(...)


Julien Gracq
Les Eaux Étroites
(1976)

As Águas Estreitas, Assírio & Alvim, Lisboa, 2006

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Branco - CLXXIII



É meia-noite, em fundo toca Bela Lugosi’s Dead, do grupo Nouvelle Vague, e nem sequer a música me impede de pensar nessa realidade «bárbara, brutal, muda, sem significado, das coisas» de que falava Ortega. Olho pela janela e vejo a vida inerte, e parece-me que esse tipo de realidade bárbara e muda é especialmente percebida hoje por quem - como já Musil pensava - acha que no mundo não existe já a simplicidade inerente à ordem narrativa, essa ordem simples que consiste em poder dizer às vezes: «Depois de aquilo ter acontecido aconteceu isto, e depois aconteceu outra coisa, etecetera». Tranquiliza-nos a simples sequência, a ilusória sucessão de factos. No entanto, há uma grande divergência entre uma confortável narração e a realidade brutal do mundo. (...)


Enrique Vila-Matas
Chet Baker pensa na sua arte, Teodolito, 2013

domingo, 1 de novembro de 2015

Azul - CLXXV


Ema passou a conhecer melhor o pontão, a esquivar-se dos seus estalidos, a saber onde vergavam as madeiras; eram só uns segundos de perigo, depois encontrava-se, como num ventre macio, dentro do barco, cujas almofadas azuis a rodeavam. E Ema deixava-se levar no fio da água, vendo a esteira de prata que a seguia fora do peso dos elementos; como se voasse ao encontro dum sentido que fosse o sinal da incarnação feminina. As altas falésias, de pedra granítica e tumular, levantavam-se nas margens. Não se podia chamar margens àquilo. Eram detalhes dum vulcão; eram, nas pedras, rasgões de garras que ali tivessem escorregado. Quem? O silêncio impenetrável subia até aos sarçais onde restos de oliveiras, que não morriam nunca, pareciam ossadas desenterradas.



Agustina Bessa-Luís
Vale Abraão, Guimarães Editores, 1991

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Cores


(...) vi a engrenagem do amor e a modificação da morte, vi o Aleph, de todos os pontos, vi no Aleph a terra, vi o meu rosto e as minhas vísceras, vi o teu rosto e senti vertigem e chorei, porque os meus olhos tinham visto esse objecto secreto e conjectural cujo nome os homens usurparam, mas que nenhum homem olhou: o inconcebível universo.   
     Senti infinita veneração, infinita lástima.
     - Ficarás tonto por bisbilhotar assim onde não és chamado - disse uma voz enfadonha e alegre.  - Mesmo que queimes o juízo, não me pagarás num século esta revelação. Que observatório formidável, hein, Borges!
  Os pés de Carlos Argentino ocupavam o degrau mais alto. Na brusca penumbra, consegui levantar-me e balbuciar:
     - Formidável. Sim, formidável!
 A indiferença da minha voz causou-me estranheza. Ansioso, Carlos Argentino insistia:
     - Viste tudo bem, a cores?



Jorge Luis Borges 
(1957)
O Aleph, Editorial Estampa, 4ª ed., 1993