"Cresce atrás das coisas como incêndio de verdade". (Rilke - trad. MariaT.Furtado)
terça-feira, 9 de maio de 2017
Cores
Trova do Vento que Passa
Adriano Correia de Oliveira (música)
Manuel Alegre (poema)
(1963)
Uxía (voz)
João Gentil (acordeão)
(2015)
Etiquetas:
Adriano Correia de Oliveira,
Cores,
Manuel Alegre,
Música,
Poesia,
Uxía
sexta-feira, 14 de abril de 2017
Amor - LXVI
Janita Salomé
Credo
(1994)
CREDO
Creio nos anjos que andam pelo mundo,
creio na deusa com olhos de diamantes,
creio em amores lunares com piano ao fundo,
creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes;
creio num engenho que falta mais fecundo
de harmonizar as partes dissonantes,
creio que tudo é eterno num segundo,
creio num céu futuro que houve dantes,
creio nos deuses de um astral mais puro,
na flor humilde que se encosta ao muro,
creio na carne que enfeitiça o além,
creio no incrível, nas coisas assombrosas,
na ocupação do mundo pelas rosas,
creio que o amor tem asas de ouro. Amém.
Creio nos anjos que andam pelo mundo,
creio na deusa com olhos de diamantes,
creio em amores lunares com piano ao fundo,
creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes;
creio num engenho que falta mais fecundo
de harmonizar as partes dissonantes,
creio que tudo é eterno num segundo,
creio num céu futuro que houve dantes,
creio nos deuses de um astral mais puro,
na flor humilde que se encosta ao muro,
creio na carne que enfeitiça o além,
creio no incrível, nas coisas assombrosas,
na ocupação do mundo pelas rosas,
creio que o amor tem asas de ouro. Amém.
Natália Correia
Etiquetas:
Janita Salomé,
Música,
Natália Correia,
Poesia
quarta-feira, 12 de abril de 2017
Cores
"Rio
Negro
(…)
Pelo
horizonte dissolvem-se planícies imensas pintadas de erva. Faltam
nomes para tantos tons de uma mesma cor e Jorge inventa-os: vesbelho,
letusto, zafaio, lusvigo. Depois esquece-se a que pertencem, mas não
tem importância.
As
sombras das nuvens correm pela erva e essa é outra cor ainda, uma
cor escura a correr. Que nome tem uma cor que foge? Jorge deita-se e
observa as nuvens. É um jogo antigo, pegar no branco e moldá-lo com
a imaginação até que ele seja um dragão, um monstro, uma sereia.
Imagem, imago, imitaginem.
Quem foi o primeiro a fazer ideias com nuvens?
Um tigre passa-lhe por cima e é dourado como poucos. Leva um brilho
novo e, ao desfazer-se, fica à vista uma bola amarela que não é
daquele céu. Jorge fita a bola de luz até os olhos começarem a
doer. É um sol de outros, pensa, uma luz que anda perdida. À
memória chegam-lhe as histórias fantásticas lidas muitas vezes,
mundos que acabam, viagens pelo espaço, seres longínquos capazes de
destruir ou de criar. Aquele amarelo é cheio de possibilidades e não
há nuvens que o possam voltar a esconder.
Nessa mesma noite, quando Jorge fecha os olhos para adormecer, a bola
amarela espera-o brilhante. Foi a primeira vez que dormiu com uma luz
acesa por dentro e passou a ser essa a cor da sua noite."
Nuno
Camarneiro
NO
MEU PEITO NÃO CABEM PÁSSAROS, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2011
sábado, 25 de março de 2017
terça-feira, 21 de março de 2017
Branco - XCVII
AS FOTOGRAFIAS
As fotografias precedem a memória,
são a realidade parada de luz.
As fotografias evoluem como os olhos,
entre reformulações e malogros.
As fotografias não amarelecem, queimam,
não se enchem de pó mas de granizo.
As fotografias duram mais que a memória,
mas não muito mais.
Pedro Mexia
Em Memória, Gótica, Lisboa, 2000
Etiquetas:
Branco,
Fotografia,
Pedro Mexia,
Poesia
segunda-feira, 20 de março de 2017
Verde - L
Superfícies Apetecidas
I
Está a terminar esta estação,
indolente como as causas
que se cansam antes das consequências.
As temperaturas perdem-se
e a maioria dos lugares não tem sítio certo.
Com inconsolável desvelo
os rios
deixam-se atravessar por quem não deve
enquanto a felicidade verde,
disfarçada de companhia,
a custo se contém nos passeios de água doce.
Só as saudações menores resistem:
não unem nem separam.
Boaventura de Sousa
Viagem ao Centro da Pele, Edições Afrontamento, Porto, 1995
Branco - XCVI
"COMO É GLORIOSO iniciar uma nova carreira, e aparecer subitamente no mundo culto, com um livro de descobertas na mão, tal um cometa inesperado que fulge no espaço!
Não, não mais guardarei o meu livro in-petto; ei-lo, senhores, leiam-no. Iniciei e terminei uma viagem de quarenta e dois dias à roda do meu quarto. As observações interessantes que recolhi e o prazer contínuo que experimentei ao longo do caminho fizeram com que desejasse torná-la pública; a certeza de ser útil conduziu-me a esta decisão. Sente o meu coração uma satisfação inexprimível quando penso no número infinito de infelizes a quem ofereço um meio garantido contra o tédio e um alívio para os males que sofrem. O prazer que se encontra ao viajar no próprio quarto está ao abrigo da inquieta inveja dos homens; é independente da fortuna.
Terá uma pessoa de ser, efectivamente, bastante infeliz, assaz abandonada, para não ter um reduto onde possa refugiar-se e esconder-se de toda a gente?
Eis todos os condimentos da viagem."
(...)
Xavier de Maistre
Viagem à roda do meu quarto
(1795)
& etc - Edições Culturais do Subterrâneo, Lisboa, 2002
Etiquetas:
Branco,
Literatura,
Viagens,
Xavier de Maistre
domingo, 19 de março de 2017
Preto e Branco - XLVIII
XLIV
Acordo de noite subitamente,
E o meu relógio ocupa a noite toda.
Não sinto a Natureza lá fora.
O meu quarto é uma coisa escura com paredes vagamente brancas.
Lá fora há um sossego como se nada existisse.
Só o relógio prossegue o seu ruído.
E esta pequena coisa de engrenagens que está em cima da minha mesa
Abafa toda a existência da terra e do céu...
Quase que me perco a pensar o que isto significa,
Mas estaco, e sinto-me sorrir na noite com os cantos da boca,
Porque a única coisa que o meu relógio simboliza ou significa
Enchendo com a sua pequenez a noite enorme
É a curiosa sensação de encher a noite enorme
Com a sua pequenez...
Alberto Caeiro
Fernando Pessoa - Obra Poética, II Vol., Círculo de Leitores, Lisboa, 1986
Etiquetas:
Alberto Caeiro,
Fernando Pessoa,
Poesia,
Preto e Branco,
relógios
Cores
"Lisboa
(...)
Fernando é uma parte do seu quarto, por isso os seus sonhos se agarram às paredes. Ao tocar-lhes sente a consistência, a temperatura e a humidade do que sonhou. Por vezes, quando acorda, sente o cheiro a medo e o calor dos pesadelos. Há dias em que o quarto cheira a Índia, onde Fernando nunca esteve senão em sonhos de longe, com aromas e cores sem nome. Há outros em que os cheiros do passad0 se entranham nos lençóis e os pesadelos são leves, feitos de vozes doces que chamam por ele.
(...)
Viver num sítio é ser esse sítio, emprestar-lhe uma alma e receber outra em troca. As biografias deviam ordenar-se por lugares, e não por datas. Nesta rua fui assim, numa outra fui diverso. Ninguém sabe descrever uma cidade, são as cidades que nos escrevem a nós."
(...)
Nuno Camarneiro
NO MEU PEITO NÃO CABEM PÁSSAROS, D. Quixote, Lisboa, 2011
Etiquetas:
Cidades,
Cores,
Literatura,
Nuno Camarneiro
Cores
XL
Passa uma borboleta por diante de mim
E pela primeira vez no Universo eu reparo
Que as borboletas não têm cor nem movimento,
Assim como as flores não têm perfume nem cor.
A cor é que tem cor nas asas da borboleta,
No movimento da borboleta o movimento é que se move,
O perfume é que tem perfume no perfume da flor.
A borboleta é apenas borboleta
E a flor é apenas flor.
Alberto Caeiro
Fernando Pessoa - Obra Poética, II Vol., Círculo de Leitores, Lisboa, 1986
Etiquetas:
Alberto Caeiro,
Cores,
Fernando Pessoa,
Poesia
segunda-feira, 30 de janeiro de 2017
Cores
"Gosto de te ter por perto, assim com estás agora, ao alcance de te querer. Se eu quisesse juntava-me a ti e seria mar também. Mas não quero, ainda não. Tenho os meus deuses para inventar e acredito ainda em cores que não são tuas. Um dia, um dia é o tempo de tudo o que haveríamos de ter sido, e eu ainda tenho dias para mundos maiores do que tu. Se eu quisesse, tu eras um segundo pequeno de uma vida por fazer, sabes que o posso querer?
Agora durmo, agora és noite e tens a cor de tudo o resto (o mar não dorme, pois não?). Não sonhas, mas és sonhado e não há nada que possas fazer.
O tempo das ondas parece-nos curto porque as vidas pequenas que vivemos nos deixam ainda ver tantas. Para o vento as ondas são montanhas azuis. Homens que viajam são o vento de quem espera e de quem fica. Tempo que vai e volta e se esquece no passar. Os homens eternos chamam deuses aos ventos e riem sozinhos ao acordar."
Nuno Camarneiro
NO MEU PEITO NÃO CABEM PÁSSAROS, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2011.
Etiquetas:
Cores,
Literatura,
Mar,
Nuno Camarneiro
terça-feira, 17 de janeiro de 2017
quinta-feira, 5 de janeiro de 2017
Verde - XLIX
Disfarce
Verdura de hastes
(de couval).
Nos trevos
um amarelo acoitado
num disfarce ferido
(matinal).
A.Oliveira
Lugares de rio
Cores
Ghosts
(Albert Ayler)
(1964)
David Murray Quartet
David Murray, sax tenor
Dave Burrell, piano
Fred Hopkins, baixo
Ralph Peterson, JR, bateria
(1993)
Etiquetas:
Albert Ayler,
Dave Burrell,
David Murray,
Fred Hopkins,
Jazz,
Jr.,
Ralph Peterson
Subscrever:
Mensagens (Atom)