"Cresce atrás das coisas como incêndio de verdade". (Rilke - trad. MariaT.Furtado)
sábado, 26 de janeiro de 2013
sexta-feira, 25 de janeiro de 2013
Preto - XXX
FÁBULA
Eu e a anciã falávamos com ardor
da argúcia dos animais que nos rodeavam
nos recessos da quinta. Suave, o balir
das ovelhas ao sairem de manhã para a miragem.
Latir dos cães, cavo e alucinado
pelas formas nocturnas. Só nos conciliava
o lirismo dos melros, de cuja fala
nos apoderámos ambas. Nós e as aves
temíamos as sombras que viviam
debaixo das ramagens encarquilhadas.
Fiama Hasse Pais Brandão
Cenas Vivas, Relógio D'Água
(2000)
Eu e a anciã falávamos com ardor
da argúcia dos animais que nos rodeavam
nos recessos da quinta. Suave, o balir
das ovelhas ao sairem de manhã para a miragem.
Latir dos cães, cavo e alucinado
pelas formas nocturnas. Só nos conciliava
o lirismo dos melros, de cuja fala
nos apoderámos ambas. Nós e as aves
temíamos as sombras que viviam
debaixo das ramagens encarquilhadas.
Fiama Hasse Pais Brandão
Cenas Vivas, Relógio D'Água
(2000)
quinta-feira, 17 de janeiro de 2013
Azul - XMV
Chama-se Reull Vallis, é o leito de um rio com vários afluentes que corta as montanhas de Promethei Terra, onde a altitude atinge os 2500 metros, antes de correr na vasta bacia de Hellas, no planeta Marte.
Foi fotografado em alta resolução pela Mars Express, uma sonda da Agência Espacial Europeia (ESA), organização a que Portugal pertence, e mede 1500 quilómetros de comprimento, tendo 300 metros de profundidade na região que é mostrada nas fotos.
Hellas é uma bacia de impacto circular localizada no hemisfério sul de Marte e tem um diâmetro de 2300 quilómetros, sendo a maior do planeta. Foi formada provavelmente pelo impacto de um grande asteróide há cerca de 3,9 mil milhões de anos.(...)
(ESA)
http://expresso.sapo.pt - 17/01/13
segunda-feira, 14 de janeiro de 2013
Branco - LIII
Relógio Big Ben
Londres
(2011)
www.dailymail.co.uk/news/article-2047021/Big-Ben-leaning-Times-tilting-clock-tower-London.html
Azul - XMIV
Margarida, cada vez mais interessada pelo estudante das Fontinhas, insistiu:
- Mas... seja franco! É poeta? - E, fitando a ponta do papel que o rapaz, na precipitação, não escondera bem no bolso, acrescentou: - Então não me acha digna de receber essa pequena confidência?... Somos ambos ilhéus... Estamos aqui sozinhos, longe dos nossos... Leia, que ninguém ouve!
O rapaz, quase trémulo, fitou Margarida desconfiado. Depois, puxando do papelinho, chegaram-se ambos para a luz, e ele leu:
Também eu!, também eu velo a noite no porto
Tão azul, apesar da escuridão perfeita...
Vitorino Nemésio
Mau Tempo no Canal
(1944)
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Vitorino Nemésio
Azul - XMIII
Trio Azul
Carlos Bica, contrabaixo
Frank Möbus, guitarra
Jim Black, bateria
Hot Clube
(2012)
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Cores
Margarida retirou a cabeça dos vidros e debruçou-se na amurada.
À medida que o vapor se afastava, a cidade, feia ao perto e de casario tapado por Canta-Galo, a Misericórdia e a Rocha, desenhara na rede das luzes o seu corpo de sereia estirada. A bombordo perfilavam-se os vultos escalvados e negros dos ilhéus das Cabras, como uma baleia seguida do seu baleote inviável. A estibordo, fechado de pinheiros e muralhas, o negrume do Monte Brasil.
Margarida deixou-se vaguear naquele recanto do convés. Um velho atlético, de barretinho de seda, dormia de boca aberta numa cadeira de lona, com os óculos na manta de viagem. Ao fundo, aproveitando o foco dos mostradores dos manípulos de manobra e a tampa especada da grande clarabóia que arejava a sala de jantar, um rapaz fino e triste, vestido pobremente, encarniçava-se sobre um lápis e um bocado de papel, contando pelos dedos. Talvez um caixeiro-viajante... Talvez um poeta... Para caixeiro-viajante era melancólico demais... Os caixeiros de amostras usavam uns bigodes floridos e fatos espampanantes. Ele tinha um buçozinho sem guias e as calças por vincar.
Vitorino Nemésio
Mau Tempo no Canal
(1944)
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Vitorino Nemésio
sábado, 12 de janeiro de 2013
Branco - LII
O chefe do Governo pôs-lhe casa no bairro burguês romano de Cortina d'Ampezzo, e é lá que vive. (...)
Em janeiro, quando a imprensa criticava as orgias das festas "bunga bunga", e entre 30 e 40 raparigas, todas com idades entre os 16 e os 35 anos, contavam pormenores, Berlusconi rejeitou o escândalo, dizendo que mantinha "um relacionamento estável e de afeto com uma pessoa."
Até que, na semana passada, foi revelado que Francesca era a noiva do antigo chefe do Governo. Finalmente o próprio Berlusconi afirmou-o frente às câmaras do Canale5, a sua emissora principal, durante uma entrevista realizada com um foco de luz branca que caía dos céus sobre ele. "Sim, estou noivo", admitiu.
Rossende Domènech
Revista, Jornal Expresso, 29/12/2012
Preto - XXIX
Boa Sr, que morreu no passado dia 4 de morte natural numa das ilhas do arquipélago de Andaman e Nicobar, situado no Golfo de Bengala, a mil e cem quilómetros da União Indiana, à qual pertence desde 1947 (...) desde 2005 era a última sobrevivente da sua tribo cuja língua, o bô, era muito diferente das outras línguas tribais das ilhas e que ninguém sabia já falar senão ela. (...)
Levou para a cova um vestido velho e remendado e deixou-nos a todos mais pobres do que éramos antes da sua morte pois levou também uma tradição de ver o mundo, de o sentir e o pensar que, depois de ter vigorado durante sessenta e cinco mil anos numa ilha do Golfo de Bengala, com ela desapareceu para sempre. (...)
Estima-se que das 7000 línguas diferentes que se falam no mundo, mais de metade extinguir-se-ão durante o século XXI.
José Cutileiro
Jornal Expresso, 13/02/2010
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quarta-feira, 9 de janeiro de 2013
Amarelo - XXXII
O senhor Ventura riu-se. O velho Vitorino! Alto, esgrouviado, chapéu à marialva, calças de boca de sino, jaleca, faixa preta, desde que o mundo era mundo que corria de lés a lés aquele santo Alentejo a falar em verso e a viver dos repentes. Muito mais idoso do que ele, senhor Ventura, já no tempo de rapaz o conhecia, vestido sempre a rigor, e criado pela graça da vida. Numa terra onde, chegada a hora, toda a gente moirejava de sol a sol, pois não havia lugar para preguiça nem costas altas, cabia a figura esguia do trovador, a dizer versos e incapaz de deitar mão a uma palha.
-Ajuda aqui, ó Vitorino - pedia-lhe um ou outro, para o ouvir.
Um poeta não trabalha
Que lho proíbe o destino.
Isto é tudo uma canalha
E o mundo é um desatino.
Era a resposta.
-Então para onde é a ida? - perguntou o senhor Ventura, já acalmado por aquela presença, que a toda a parte levava uma espécie de paz do nada, uma deseroização do suor, da ambição, do amor e de todas as desgraças que tinham afligido o seu coração.
Eu vou-me por aí além
Com a ajuda dos meus pés.
Não digo adeus a ninguém
Porque cá volto outra vez.
E partiu, de facto. Na vastidão da planície, o seu vulto magro foi diminuindo, diminuindo, até ser apenas um ponto negro que se demorou largo tempo nos olhos apaziguados do senhor Ventura. Depois, subitamente, desapareceu.
Miguel Torga
O Senhor Ventura
(1943)
domingo, 6 de janeiro de 2013
sábado, 5 de janeiro de 2013
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